Dedo em riste não assusta Teerã

O fato de os EUA, que têm o maior arsenal atômico, criticarem os outros por desenvolver a mesma tecnologia é algo hipócrita

LIONEL SHRIVER, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2010 | 00h00

Neste fim de semana, especialistas russos começarão a abastecer o reator de Bushehr no Irã, o primeiro passo para a primeira usina nuclear do país entrar em funcionamento. Embora a secretária americana de Estado, Hillary Clinton, tenha condenado o processo como "prematuro", Bushehr é há muito tempo um fiasco, anterior à Revolução Iraniana. Pelo acordo firmado com Moscou, o combustível já utilizado deve ser devolvido à Rússia.

A precária esperança de que o Irã mantenha sua promessa, principalmente por não dispor ainda da tecnologia para reprocessar os bastões com urânio enriquecido a 3,5%, é a única razão pela qual os Estados Unidos e seus aliados ainda não ficaram histéricos. Seguro ou não, o reator de Bushehr faz prever projetos nucleares mais sinistros do Irã, que o governo de Barack Obama não conseguiu desestimular.

"O Irã tem direito à energia nuclear para uso civil", declarou Hillary Clinton ao discursar em Moscou, em março. "Ele não tem o direito de levar adiante um programa para fabricar armas nucleares."

Embora evidentemente nenhum país tenha "o direito" de possuir armas que podem acabar com a vida no planeta, o fato de a nação com o maior arsenal nuclear do mundo criticar os outros por desenvolver a mesma tecnologia é algo extraordinariamente hipócrita.

Entretanto, nos acostumamos a tal ponto, desde pequenos, a esse tipo de hipocrisia que ninguém parece se dar conta disso. O clube nuclear deve permanecer exclusivo. O Tratado de Não-Proliferação Nuclear reconhece os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU - EUA, Rússia, França, China e Grã-Bretanha - como "países dotados de armas nucleares", que se comprometem a agir como leões de chácara na porta do clube.

Teoricamente, o tratado obriga esses membros a abandonar suas armas nucleares no momento devido - expressão apropriadamente pretensiosa, pois um mundo livre da bomba tornaria um país rebelde com uma única arma nuclear tão poderoso que as chances de desarmamento universal se reduziriam a zero. Além disso, um país não guardaria um artefato desse tipo para depois explicar aos outros que eles não "têm direito" à mesma arma.

Infelizmente, o Irã tem o mesmo direito de ter armas nucleares que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. O mesmo vale para a Coreia do Norte. O governo Obama tem o direito moral e político de dizer apenas: "Não queremos que o Irã tenha armas nucleares." E Mahmoud Ahmadinejad poderia responder muito sensatamente: "E daí?"

Herança. Praticamente nenhum governo quer que o Irã tenha armas nucleares, até mesmo seus vizinhos do Oriente Médio, assim como a ninguém agrada, no mundo inteiro, que o "amado líder" da Coreia do Norte deixe de herança algumas bombas a um filho que prometeu continuar a tradição de família de ser ainda mais louco do que o pai.

Mas, como a promoção da não-proliferação pelos países nucleares é há anos cronicamente enganadora, o governo Obama precisa ser mais esperto e mais sensível e preocupar-se como a pregação "vocês não têm direito àquilo que nós temos em abundância" pode soar a ouvidos hostis.

Esta arrogância só pode ter um efeito contrário. Por presunção, os EUA são um dos poucos países suficientemente moralistas para salvaguardar o mundo do apocalipse que eles próprios poderão desencadear. Logo, o Irã é o guardião indigno de confiança dos meios que podem provocar o apocalipse.

Mas esta posição egocêntrica certamente leva as nações soberanas que não têm a arma a contestar: "O que vocês estão pensando que são?" Internamente, a retórica do "direito" do Irã só pode inflamar a indignação nacionalista, que se converte claramente em propaganda para Mahmoud Ahmadinejad. Ela atira a luva convidando ao desafio.

Certamente, o poder da pressão internacional sobre o Irã é limitado.

Mas o imprescindível é uma manipulação competente, o que significa apelar para o interesse próprio. Em vez de brandir sanções, os EUA precisam abandonar esta posição e falar francamente: "Tudo bem, vocês querem a arma. Considerando como tratamos os que resolveram construí-la mesmo quando foram instruídos a não fazê-lo, isto é compreensível. Nós tratamos o Paquistão com luvas de pelica, e quando ele decidiu ter a bomba, nós nos limitamos a pensar: "Que coisa chata!" Assim, quando Pyongyang afundou o navio de guerra sul-coreano, nós esperneamos e resmungamos: "Não foi uma coisa decente", mas nada aconteceu. Porque temos medo desse pessoal. Então, é claro, vocês também querem que tenhamos medo de vocês."

"Mas vocês leram o artigo de capa da revista Atlantic Monthly de agosto? O autor alinhavou uma história inquietante e convincente segundo a qual, se vocês entrarem como penetras no nosso clube de elite, Israel ordenará ataques aéreos contra vocês, assim como destruíram o reator Osirak de Saddam Hussein em 1981, e o reator construído pela Coreia do Norte na Síria, em 2007. Sabemos que vocês não acreditam em nós, mas nós não controlamos totalmente estas pessoas."

"Pensem um pouco: vocês querem uma guerra no Oriente Médio? Quando vocês pensam na guerra Irã-Iraque, não sentem uma sensação de cansaço? Vocês têm uma inflação e um desemprego galopantes. Será que teriam condições de custear uma guerra? Não seria melhor se gastassem seu dinheiro torturando os que contestam e executando as adúlteras com algo mais sofisticado do que pedras?"

Tudo bem, talvez Hillary imaginasse algo mais convincente que isto. Mas qualquer apelo pragmático seria melhor do que esta coisa idiota de ficar sacudindo o dedo diante do nariz dos outros, que notoriamente não funciona com os filhos da gente, como repreender um adolescente por fumar, cutucando-o com um cigarro aceso para dar mais ênfase. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA E ESCRITORA

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