Tyler Hicks/The New York Times
Tyler Hicks/The New York Times

Defender Chernobyl durante uma invasão? Por que se incomodar, perguntam alguns ucranianos

A Ucrânia iniciou uma estratégia defensiva para a Zona de Exclusão de Chernobyl, um dos lugares mais radioativos da Terra, que fica no caminho mais curto entre a Rússia e a capital da Ucrânia, Kiev

Andrew E. Kramer, The New York Times, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2022 | 05h00

CHERNOBYL, UCRÂNIA - Soldados ucranianos, fuzis Kalashnikov pendurados em seus ombros, patrulhavam por uma floresta silenciosa e cheia de neve, passando por casas abandonadas há tanto tempo que vinhas rodopiavam através das janelas quebradas.

Os campos estão em repouso, as cidades desertas e toda a zona de Chernobyl no norte da Ucrânia ainda é tão radioativa que parece o último lugar na Terra que alguém gostaria de conquistar.

Mas enquanto a maior parte da atenção em torno de uma potencial invasão da Rússia está focada no acúmulo de tropas e hostilidades diárias no leste, a rota mais curta da Rússia para a capital da Ucrânia, Kiev, é pelo norte. E passa pela zona isolada ao redor da usina de Chernobyl, onde a explosão de um reator em 1986 causou o pior desastre nuclear da história.

Em uma das incongruências da guerra, isso faz de Chernobyl uma área que a Ucrânia acha que precisa defender, forçando seus militares a enviar forças de segurança para a floresta assustadora e ainda radioativa, onde carregam armas e equipamentos para detectar a exposição à radiação.

“Não importa se está contaminado ou se ninguém mora aqui”, disse o tenente-coronel Yuri Shakhraichuk, do serviço de guarda de fronteira ucraniano. “É nosso território, nosso país, e devemos defendê-lo.”

A força na área, conhecida como Zona de Exclusão de Chernobyl, não seria suficiente para repelir uma invasão, se ela viesse; está lá principalmente para detectar sinais de alerta. “Coletamos informações sobre a situação ao longo da fronteira” e as transmitimos às agências de inteligência da Ucrânia, disse o coronel Shakhraichuk.

O conceito da Zona de Exclusão de Chernobyl, quando as autoridades soviéticas a estabeleceram há três décadas, era limitar, por meio do isolamento, a letalidade do acidente na usina nuclear.

Partículas radioativas deixadas no solo ou presas sob a estrutura de contenção do reator destruído representam pouco risco para os soldados enquanto se decompõem lentamente, desde que esses soldados não permaneçam em áreas altamente irradiadas. Mas a terra deve ser abandonada, em alguns lugares por centenas de anos.

Dois meses atrás, o governo enviou forças adicionais para a área, devido ao aumento das tensões com a Rússia e Belarus, um aliado do Kremlin cuja fronteira fica a oito quilômetros do reator atingido e para onde a Rússia recentemente deslocou tropas.

"Como isso é possível?" disse Ivan Kovalchuk, um bombeiro ucraniano que ajudou a extinguir o incêndio na usina nos primeiros dias após o acidente, arriscando sua vida ao lado de russos e pessoas de toda a antiga União Soviética. Ele disse estar indignado com o fato de a Rússia poder ameaçar a zona militarmente.

"Nós liquidamos o acidente juntos", disse Kovalchuk. “Fazer isso conosco agora só me faz sentir pena das pessoas” na Ucrânia, ele disse.

O reator nº 4 da usina nuclear de Chernobyl explodiu e queimou durante um teste em 26 de abril de 1986, liberando cerca de 400 vezes mais radiação do que a bomba de Hiroshima. Trinta pessoas morreram logo após o acidente, a maioria por exposição à radiação; estudos sobre os efeitos a longo prazo na saúde foram em sua maioria inconclusivos, mas sugerem que poderia haver milhares de mortes por câncer.

Embora a zona seja inabitável, atrai turistas para visitas curtas, gerando alguma renda, e é vista na Ucrânia como um momento de aprendizado na história recente.

Na época do acidente, a Ucrânia era uma república soviética e, inicialmente, as autoridades soviéticas tentaram encobrir o desastre. Para evitar levantar suspeitas, eles mantiveram, alguns dias depois, os desfiles de 1 de maio na Ucrânia, marchando com crianças em idade escolar em meio a um redemoinho de poeira radioativa.

Essa atitude insensível ajudou a despertar o sentimento anti-soviético em toda a Rússia, Belarus e Ucrânia, as repúblicas mais afetadas, e o acidente agora é visto como uma das causas do colapso da União Soviética cinco anos depois.

A zona de Chernobyl cobre cerca de 1.000 milhas quadradas abrangendo a rota direta mais curta da fronteira de Belarus para Kiev. Embora não seja necessariamente a rota de invasão mais provável pelo norte, porque é pantanosa e com uma floresta densa, a Ucrânia não descartou essa possibilidade.

Antes do outono passado, as 700 milhas de fronteira entre a Ucrânia e Belarus estavam quase desprotegidas, principalmente nas áreas irradiadas. Cerca de 90 milhas de fronteira separam a zona ucraniana de uma área similarmente isolada e irradiada em Belarus, chamada Reserva Radioecológica do Estado da Polésia.

Isso mudou em novembro em meio a uma crise migratória em Belarus e um aumento de tropas na Rússia.

Os dois acontecimentos combinados foram preocupantes. Moscou começou a reunir tropas de uma maneira que sugeria planos para uma incursão na Ucrânia via Belarus. Kiev também temia que Belarus pudesse criar uma provocação, como levar imigrantes em direção à fronteira ucraniana - como fez com a Polônia - e fornecer a faísca para a guerra.

A Ucrânia respondeu enviando 7.500 guardas adicionais para a fronteira de Belarus. O coronel Shakhraichuk, do serviço de fronteira, disse que não poderia revelar quantos foram especificamente para Chernobyl. Mas os temores sobre uma incursão de Belarus só cresceram nesta semana, já que a Rússia direciona tropas e equipamentos para lá antes dos exercícios conjuntos planejados com Belarus em fevereiro.

Aproximadamente uma dúzia de soldados estavam visíveis na área de fronteira em uma visita recente, mas autoridades disseram que outros estavam de patrulha em outros lugares.

A zona é um lugar doloroso para se trabalhar. Nos dias após o acidente, cerca de 91.000 pessoas foram evacuadas recebendo a ordem apenas com algumas horas de antecedência.

Florestas cresceram em torno de suas antigas casas. Espiar pelas janelas revela roupas, sapatos, pratos e outros resquícios de vidas comuns espalhados, cobertos de poeira e líquen.

Na maior cidade, Pripyat, agora uma cidade fantasma, um cartaz de propaganda ainda exalta as virtudes da energia nuclear civil. Está escrito: “Deixe o átomo ser um trabalhador, não um soldado”.

O risco de uma guerra espalhar ainda mais a radiação parece mínimo. Mas um objeto na zona é particularmente vulnerável: um novo arco de aço inoxidável de US $1,7 bilhão sobre o reator destruído, pago principalmente pelos Estados Unidos e cerca de 30 outros países. Foi concluído em 2016 para evitar a propagação de poeira altamente radioativa.

A cidade de Chernobyl ainda é parcialmente ocupada por trabalhadores que vivem ali durante os rodízios. Eles mantêm a estrutura de contenção sobre o reator danificado, estradas e outras infraestruturas.

 “É ruim, é assustador”, disse Elena Bofsunovska, balconista de uma mercearia, sobre a possibilidade de ação militar perto do reator destruído.

“Não sabemos o que nos matará primeiro, o vírus, a radiação ou a guerra”, disse Oleksei Prishepa, um trabalhador que estava no balcão da loja, dando de ombros.

Prishepa disse que preferiria que a Ucrânia estabelecesse as linhas defensivas mais ao sul, entregando a zona irradiada a quem quisesse. “É um terreno baldio”, disse. “Nenhuma safra vai crescer aqui.”

Antes do acúmulo russo de tropas, a principal preocupação de segurança em Chernobyl era a coleta ilegal de cogumelos e de sucata, atividades que arriscam espalhar radiação para fora da zona. A polícia também detém regularmente os “caçadores de emoções” que entram ilegalmente para passear.

Na maioria das vezes, os soldados em patrulha enfrentam pouco risco de radiação. Mas partículas de vida mais longa permanecem, criando pontos invisíveis e letalmente perigosos na floresta. Alguns emitem níveis de radiação milhares de vezes maiores do que o normal. Os soldados criaram rotas para evitar esses lugares, que há muito foram mapeados pelos cientistas.

Ainda assim, enquanto patrulham na zona, os soldados devem carregar dispositivos em um cordão em volta do pescoço que monitora continuamente a exposição; sob os protocolos de patrulhamento na zona, se um soldado tropeça em um local altamente irradiado, ele é retirado de serviço para evitar mais exposição.

Até o momento, nenhum dos guardas de fronteira enviados para a região em novembro foi exposto a altas doses, de acordo com o coronel Shakhraichuk.

“Há lugares muito perigosos a evitar”, disse o major Aleksei Vegera, que serve na força policial de Chernobyl. Membros dessa força, acostumados a trabalhar na área, acompanham os guardas de fronteira em patrulhas.

"Realmente tentamos ser cuidadosos", ele disse. “Mas, o que posso dizer, estou acostumado com isso.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

 

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