Defensor da liberdade de imprensa é agora traidor da pátria

Diretor de uma ONG pode pegar 10 anos de prisão após ser acusado de receber dinheiro para instigar a queda de Chávez

, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

Ewald Scharfenberg personifica hoje a pressão do governo de Hugo Chávez sobre os meios de comunicação. Denunciado em julho por traição à pátria, está sujeito, ao fim do processo, a uma sentença de 10 anos de prisão. Scharfenberg, jornalista, dirige em Caracas a ONG Instituto Prensa y Sociedad (Ipys), que está na Venezuela desde 2002 e se dedica a defender a liberdade de imprensa, a solicitar informações públicas ao Estado e a oferecer às escolas de comunicação oficinas sobre jornalismo investigativo.

A ira do chavismo recaiu sobre ele em junho, quando uma reportagem da TV estatal Venezolana de Televisión (VTV) apresentou documentos "denunciando" o Ipys por ter recebido "US$ 4 milhões de organizações de direita dos EUA para desestabilizar o setor financeiro da Venezuela".

O Ipys aparecia ao lado de outra ONG de defesa das liberdades individuais, a Espacio Público, dirigida por Carlos Correia - réu no mesmo processo de traição à pátria. Segundo a denúncia, os dois organismos, mais uma série de partidos políticos da oposição, teriam recebido mais de US$ 50 milhões do Departamento de Estado para instigar a derrubada de Chávez.

"Recebemos doações de várias instituições multilaterais, como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), da Comunidade Andina de Fomento, de países europeus e organizações dos EUA, entre as quais estão a Freedom House e a National Endowment for Democracy", diz Scharfenberg ao Estado. "Além disso, todo nosso orçamento desde que chegamos à Venezuela, em 2002, não ultrapassa os US$ 800 mil."

O diretor do Ipys explica que a suposta denúncia feita no programa La Hojilla ligava os fundos doados pelas instituições americanas a uma conspiração para assassinar Chávez. Naqueles dias, a polícia venezuelana deteve no Aeroporto de Maiquetía um cidadão salvadorenho chamado Francisco Chávez Abarca. Este teria vínculos com Luis Posada Carriles, acusado de ter planejado um atentado a bomba contra um avião da Cubana de Aviación que matou 73 pessoas, e vive hoje exilado em Miami. "Assim, acabamos acusados de envolvimento num plano para assassinar o presidente", diz Scharfenberg.

"Chávez não se utiliza dos mecanismos clássicos de restringir a ação da imprensa, como a censura prévia que era comum na época das ditaduras sul-americanas", explica Scharfenberg.

"Seus métodos são mais intimidatórios, por meio de leis específicas traçadas com esse fim, por meio do assédio pessoal de jornalistas por parte de militantes chavistas, por meio da pressão econômica aos meios de comunicação."

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