Defesa de Berlusconi ultrapassa limite ético

O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, lançou um ataque contra aqueles que o acusam de relacionar-se com jovens e de receber prostitutas e garotas de programa em sua paradisíaca propriedade na Sardenha. Por isso, a mulher de Berlusconi, Veronica Lario, pediu o divórcio.

Gilles Lapouge*, O Estadao de S.Paulo

05 de setembro de 2009 | 00h00

Esse contra-ataque vem causando barulho e lançando muita lama. Berlusconi processou o jornal italiano La Reppublica por difamação, exigindo um ressarcimento de 1 milhão. O jornal tem publicado diariamente perguntas do tipo: "O senhor sabia que dezenas de mulheres que recebeu em sua casa eram prostitutas?"

Os jornais estrangeiros também não foram poupados. Uma ação judicial foi aberta contra o semanário francês Le Nouvel Observateur, que fez um relato das festas faraônicas e eróticas do Cavalieri. Outro jornal foi o El Pais, que publicou fotos de mulheres nuas na mansão dele.

Berlusconi coloca em ação toda sua artilharia, em particular o Il Giornale, periódico controlado por seu irmão, Paolo Berlusconi. Em agosto, o jornal ameaçou os adversários de Berlusconi usando os seguintes termos: "La Reppublica cobre de lama a vida privada de Berlusconi. Il Giornale agirá do mesmo modo. Sangue e coisas ainda mais imundas circularão na imprensa escrita."

Há alguns dias, o Il Giornale também começou a lançar obscenidades para todo o lado. Atacou outro jornal, o L?Avvenire, que não é um diário sensacionalista e pertence à Conferência Episcopal italiana. Foi em nome da moral cristã que o jornal tinha questionado, com elegância, o comportamento de Berlusconi.

A reação do jornal de Paolo Berlusconi foi fulgurante. Acusou o diretor do L?Avvenire, Dino Boffo, de ser homossexual. A hierarquia católica não gostou. "É um ataque grave e asqueroso", disse o cardeal Angelo Bagnasco. Até Berlusconi recuou. Sua sorte política é garantida, em boa parte, pelos católicos. Assim, procurou se distanciar da iniciativa do jornal.

No entanto, o Il Giornale não se acalmou e lançou um novo aviso: "Enquanto os moralistas continuarem especulando sobre a vida íntima dos outros, estaremos observando a vida íntima deles."

A sociedade italiana acompanha a batalha com repulsa. Teme-se que Berlusconi utilize a polêmica para restringir a liberdade de expressão. Um texto assinado por três juristas conhecidos convocou os italianos contra a "tentativa de amordaçar a imprensa".

O abaixo-assinado já tem 170 mil assinaturas, entre elas as de Umberto Ecco e Bernardo Bertolucci. Mesmo à direita, alguns que apoiam Berlusconi não escondem o desconforto. Uma tensão com a Igreja pode apagar o brilho do Cavaliere.

*Gilles Lapouge é

correspondente em Paris

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