Defesa de Cuba ofusca agendas bilaterais

Crise econômica e biocombustíveis são deixados para segundo plano

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

18 de abril de 2009 | 00h00

As sanções americanas a Cuba tornaram-se, como se esperava, um dos debates centrais da Cúpula das Américas. Especialistas, porém, alertam para o risco de a questão cubana ofuscar uma série de outros pontos da agenda regional que poderiam avançar durante o encontro. "Parece-me correto que os países latino-americanos pressionem os EUA pelo fim do embargo", diz o economista cubano Carmelo Mesa-Lago, professor da Universidade de Pittsburgh. "Mas a verdade é que esse é apenas um tema da agenda bilateral entre EUA e Cuba. Há outras questões de interesse geral que poderiam avançar nessa cúpula se a questão cubana não monopolizasse os debates." O diretor da revista Foreign Policy, Moisés Naim, concorda. "Cuba é importante simbolicamente, mas estrategicamente é irrelevante. Mudanças na política de envio de recursos e visitas à ilha, por exemplo, são irrelevantes para 99,9% dos latino-americanos", disse em entrevista recente ao Estado, referindo-se ao anúncio feito por Obama no dia 12. Entre os temas em que se pode avançar está a cooperação para o desenvolvimento de energias alternativas. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, quer convencer o americano Barack Obama a acabar com as barreiras comerciais ao etanol brasileiro. "Seria de interesse do Brasil selar o compromisso da região com energias alternativas, ampliar as parcerias em pesquisas e abrir fontes de financiamento", diz o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília. Outra questão importante é o combate aos efeitos da crise econômica global na América Latina. Com a desaceleração econômica, alguns países da região precisarão de financiamento externo para fechar suas contas. Fleischer lembra que o México, recentemente, aceitou uma linha de crédito disponibilizada pelo Fed (banco central americano).A discussão do protecionismo americano sobre os produtos agrícolas também interessaria a boa parte dos países da região. Para Obama, porém, trata-se de um tema espinhoso, já que o Partido Democrata tradicionalmente está comprometido com interesses de produtores e sindicatos nos EUA. Por outro lado, Mesa-Lago lembra de uma área na qual a agenda latino-americana e a de Obama parece convergir em muitos aspectos: o combate ao narcotráfico. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, admitiu recentemente em visita ao México a parcela de culpa dos EUA no problema. Por um lado, os americanos são os maiores consumidores da cocaína produzida no Peru, na Bolívia e na Colômbia. Por outro, fabricam boa parte das armas usadas pelos cartéis mexicanos. "Obama pode muito bem investir em programas de prevenção ao consumo e parece disposto a impor algumas restrições à venda de armas nos EUA.", diz Mesa-Lago, explicando que o obstáculo, nesse caso, é o forte lobby pró-armas que existe nos país. "Se os países da região derem mais ênfase a essa questão nesse momento, talvez ajudem o presidente americano a conseguir o apoio necessário para iniciativas nessa área."

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