Defesa de Kadafi e Assad prejudica posição do Brasil

Análise: Lourival Sant'anna

JORNALISTA DE O ESTADO, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2011 | 03h01

Há uma ironia histórica no fato de a presidente Dilma Rousseff tornar-se a primeira mulher a abrir a Assembleia-Geral da ONU defendendo o reconhecimento do Estado palestino. O Brasil adquiriu o privilégio da abertura com a atuação do diplomata Osvaldo Aranha na 2.ª Assembleia, em 1947, que definiu a partilha da Palestina com um mapa aceito pelos judeus e rejeitado pelos árabes, abrindo caminho para a proclamação do Estado de Israel, no ano seguinte.

Mas, ao lado da ironia, há um preocupante encadeamento de posições. O Brasil está sendo identificado no mundo como um país que apoia as ditaduras de Muamar Kadafi, na Líbia, e de Bashar Assad, na Síria. Em março, o Brasil se absteve na votação do Conselho de Segurança da ONU que aprovou a intervenção da Otan na Líbia. Há um mês, bloqueou os investimentos do banco ABC, controlado pelo Banco Central líbio, na contramão das potências ocidentais e do Golfo Pérsico.

Quanto à Síria, o Brasil resistiu a uma resolução mais dura do CS contra a repressão dos protestos e insistiu no diálogo com Assad.

Como de hábito entre ditadores no mundo árabe, Kadafi e Assad posam de patrocinadores da causa palestina. Kadafi injetou dinheiro nos movimentos palestinos e promoveu atentados contra Israel. Assad abriga Khaled Meshal, líder do Hamas, e apoia o libanês Hezbollah.

A posição que Dilma assume hoje perante a ONU é coerente com a linha adotada há mais de duas décadas pelo Brasil, de progressivo reconhecimento do status nacional da liderança palestina. Mas as posições recentes com relação à Líbia e à Síria correm o risco de contaminar e distorcer o sentido desse apoio.

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