Sai Aung Main / AFP
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Defesa de Suu Kyi em Haia pode chocar Ocidente, mas reforça seu status de heroína em Mianmar

Para muitos no Ocidente, a decisão de Suu Kyi de defender pessoalmente o expurgo dos rohingyas em Mianmar completa sua transformação de símbolo de esperança em embaixadora do ódio

Shibani Mahtani e Michael Birnbaum / W. Post  , O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2019 | 08h00

HAIA - Aung San Suu Kyi passou quase duas décadas em prisão domiciliar enquanto uma junta militar governou Mianmar. Nesta semana, em Haia, a ganhadora do Nobel e ex-ativista da democracia defenderá alguns desses mesmos generais e seu país contra acusações de genocídio.

Para muitos no Ocidente, a decisão de Suu Kyi de defender pessoalmente o expurgo dos rohingyas em Mianmar completa sua transformação de símbolo de esperança em embaixadora do ódio. Como chefe civil de um governo ainda sob forte influência militar, ela apoiou o Exército e sua campanha contra a minoria muçulmana, forçando os Estados Unidos, o Reino Unido e outros países a reavaliar a líder que eles passaram anos elogiando.

Em Mianmar, porém, a decisão solidificou o status de heroína de Suu Kyi, meses antes das eleições do próximo ano, revelando a aversão que muitos no país de maioria budista sentem contra os rohingyas, bem como cálculos domésticos que podem ser politicamente convenientes para ela.

Quando ela partiu para a Suprema Corte das Nações Unidas, dezenas de milhares de pessoas participaram de manifestações em Mianmar para apoiar sua missão, cantando e agitando cartazes. Alguns planejaram voar para a Holanda. Uma cerimônia religiosa foi realizada em sua homenagem em um pagode chamado “paz eterna”.

A operação militar contra os rohingyas no Estado de Rakhine forçou quase 1 milhão de pessoas a se deslocarem para esquálidos campos de refugiados no país vizinho, Bangladesh, em meio a acusações de estupro, assassinatos e tortura. Especialistas jurídicos dizem que o país agora enfrenta um acerto de contas que pode implicar Suu Kyi, embora um julgamento provavelmente demore anos.

“É a primeira vez que eles respondem às atrocidades dos militares no Estado de Rakhine em um tribunal confiável”, disse Param-Preet Singh, diretor associado do Programa Internacional de Justiça da Human Rights Watch.

O caso foi levado ao Tribunal Internacional de Justiça pela Gâmbia, o menor país da África continental, com o apoio dos 57 membros da Organização de Cooperação Islâmica. A decisão da Gâmbia é um exemplo raro de litígio de estado contra estado entre os países membros da ONU, e a primeira vez que um país sem conexão direta com as supostas atrocidades apresenta um caso ao tribunal.

“Foi preciso que um país minúsculo como a Gâmbia procurasse a justiça. Nenhuma das grandes potências conseguiu fazer isso. É um herói improvável que está destrancando uma porta e abrindo esse caminho, que não existia antes”, disse Singh.

As audiências desta semana estão entre as várias manobras legais internacionais para responsabilizar as autoridades de Mianmar. Em novembro, os juízes do Tribunal Penal Internacional autorizaram os promotores a abrir uma investigação sobre crimes contra a humanidade no caso dos rohingyas.

Uma característica marcante do processo é o aparecimento de Suu Kyi. Sua defesa, marcada para quarta-feira, será uma das poucas vezes que uma líder nacional se dirige pessoalmente ao tribunal, que se constituiu em 1946.

Analistas e pessoas familiarizadas com o pensamento de Suu Kyi dizem que considerações domésticas explicam, em grande parte, sua determinação em testemunhar pessoalmente. Entre essas considerações está o desejo de impulsionar sua força pessoal e a de seu partido e de aplacar as forças militares, as quais dominam os principais ministérios e se opuseram às propostas de mudanças constitucionais que revogariam seu papel consagrado na política e permitiriam que Suu Kyi se tornasse oficialmente presidente.

Essas pessoas dizem que Suu Kyi se vê como a única pessoa que pode e deve fazer o trabalho de enfrentar o opróbrio internacional.

“Aung San Suu Kyi acredita que ela é a pessoa mais capaz de apresentar o caso de Mianmar em Haia e, como ministra das Relações Exteriores, a pessoa que tem mais responsabilidade para fazê-lo”, disse Richard Horsey, analista político de Yangon. “Sem dúvida, ela entende a importância deste momento para a posição internacional de Mianmar, mas também ficará de olho em sua audiência doméstica."

O jornal estatal de Mianmar, o Global New Light, ao anunciar a partida de Suu Kyi no domingo, disse que ela contestaria o caso “para defender o interesse nacional”. Os líderes de Mianmar disseram que os tribunais internacionais não têm jurisdição sobre o assunto e negaram a ideia de que haveria alguma campanha premeditada contra os rohingyas, alegando que estavam apenas respondendo a uma ameaça dos militantes à segurança.

Kobsak Chutikul, diplomata e parlamentar tailandês aposentado que serviu em um conselho consultivo reunido por Suu Kyi após a crise dos rohingyas, disse que sua decisão pareceu pegar os líderes militares desprevenidos, tanto que eles fizeram uma “reunião de segurança nacional” especial para alinhar os posicionamentos.

“Assim, parece conselho dado por alguém de seu círculo de conselheiros ocidentais, que podem estar mais preocupados com a imagem internacional”, disse ele. “Talvez eles a tenham aconselhado a ‘comandar a narrativa’, ‘torná-la pública’ e usar seu poder de celebridade para abafar críticos e acusadores”. Além disso, “os militares agora também estão devendo um favor a ela”, acrescentou Kobsak.

A aposta é arriscada, pois a comunidade internacional busca maneiras de responsabilizar Mianmar. Em 2018, a Câmara dos Deputados dos Estados Unidos votou esmagadoramente por uma resolução que declarava a expulsão dos rohingyas como genocídio. Em julho, o Departamento de Estado anunciou sanções contra os líderes militares, incluindo o comandante-chefe Min Aung Hlaing, acusando-os de “violações graves dos direitos humanos”.

Até agora, as medidas punitivas ainda não atingiram Suu Kyi, que tem um relacionamento próximo com o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, republicano de Kentucky.

Se os cálculos de Suu Kyi vão funcionar como ela espera, isso “é algo muito questionável, na melhor das hipóteses”, disse um ex-diplomata ocidental que trabalhou em estreita colaboração com ela. “No fim das contas, ir a Haia é muito arriscado, é algo que pode até implicá-la nas atrocidades de maneira mais profunda.”

Para os refugiados rohingyas e aqueles que ainda estão em Mianmar – onde estão segregados, com direitos de cidadania negados e movimentações restritas –, o processo é motivo de otimismo cauteloso. Os rohingyas de Mianmar estão encontrando maneiras de assistir à cobertura ao vivo, em conexões de internet precárias. Já os rohingyas que estão em Bangladesh, afetados por um bloqueio de conexão, enfrentam mais dificuldades para obter notícias, mas dizem que estão com esperança pela primeira vez em anos.

“Perdemos nossa fé e esperança no governo de Mianmar, [mas] agora temos alguma esperança no tribunal”, disse Khin Maung, co-fundador da Associação de Jovens Rohingya, sediada nos campos de Bangladesh. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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