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Déficit de liderança generalizado

Bolsonaro não vai a Glasgow para não enfrentar hostilidade pela imagem de vilão do meio ambiente

Lourival Sant'Anna*, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2021 | 05h00

A Conferência sobre Mudança Climática (COP-26) é um teste de liderança. É papel dos governantes convencer as populações de que os sacrifícios para conter o aquecimento hoje são necessários para evitar sofrimento maior no futuro. Entretanto, a COP-26 começa com um déficit de liderança generalizado.

O presidente dos EUA, Joe Biden, não conseguiu, antes de viajar, desatar o nó dentro da própria bancada democrata para encaminhar a aprovação na Câmara do pacote de US$ 1 trilhão para infraestrutura convencional, que por sua vez abriria caminho para a apreciação dos programas sociais e ambientais no valor de US$ 1,75 trilhão – reduzido à metade do montante inicial de US$ 3,5 trilhões.

O presidente da China, Xi Jinping, nem sequer vai à conferência, por causa das múltiplas crises que enfrenta em casa: escassez de energia – causada em parte pela brusca redução do uso do carvão –, estouro da bolha do setor imobiliário e desaceleração econômica. Vladimir Putin também ficará em Moscou, para enfrentar o surto de covid-19, que está mais uma vez fora de controle na Rússia

O primeiro-ministro Fumio Kichida, do Japão, enfrenta eleições hoje. E o mexicano Andrés Manuel López Obrador não é de viajar. Tudo isso abriria espaço para a liderança brasileira. O presidente Jair Bolsonaro se converteu à causa da preservação da Amazônia com a cúpula promovida por Biden, em abril, e o crescimento das pressões externas e internas. 

O orçamento dos órgãos ambientais subiu de R$ 228 milhões, no início do ano, para R$ 498 milhões, e foram contratados 739 novos fiscais. O Ministério do Meio Ambiente (MMA) é o único no governo a contratar servidores. O desmatamento da Amazônia caiu 14% entre julho e setembro. 

Bolsonaro lançou, na segunda-feira, o Plano Nacional de Crescimento Verde, que envolve R$ 411 bilhões e a articulação de 11 ministérios. Na quinta-feira, porém, uma nova iniciativa recolocou o Brasil na defensiva: 60 países aderiram à meta de cortar 30% das emissões de metano em 2020 até 2030. 

O Brasil não tem como aderir: pelo padrão mundial, 27% das emissões causadas pela atividade humana provêm da pecuária e 9%, do arroz irrigado. O programa Agricultura de Baixo Carvão incluiu, na segunda-feira, tecnologias de redução das emissões do gado bovino. Mas, como tudo nessa área, os resultados demoram a aparecer. 

Bolsonaro também não vai a Glasgow, para não enfrentar hostilidades em razão de sua imagem de vilão do meio ambiente. Cabe ao MMA e ao Itamaraty restaurar o protagonismo do Brasil.

*É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

 

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