Ghulamullah Habibi / EFE
Ghulamullah Habibi / EFE

Definição de terrorismo emperra negociação de paz entre EUA e Taleban

Pacto prevê saída de tropas americanas do Afeganistão, país que não seria mais base para atentados, mas definição de terror ainda é trava

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2019 | 22h14

DOHA - Quase 11 dias depois que as negociações de paz entre os Estados Unidos e o Taleban começaram, em uma tentativa de pôr fim ao conflito de quase 18 anos no Afeganistão, uma questão quase filosófica, mas fundamental, emperrou as conversas: o que é o terrorismo? Quem pode ser considerado terrorista?

A resposta é importante porque os dois lados já haviam concordado com uma estrutura para as duas questões cruciais do conflito: a retirada das tropas americanas de território afegão e o compromisso de que o país não voltaria a ser usado para lançar ataques terroristas contra os Estados Unidos e seus aliados, como a Al-Qaeda fez com seus ataques em 11 de setembro de 2001. Esse ataque levou os americanos a invadir o Afeganistão em um esforço para caçar o mentor da Al-Qaeda, Osama bin Laden.

O Taleban comprometeu-se a não permitir que o Afeganistão seja usado como plataforma de lançamento de ataques internacionais. Negociadores americanos então insistiram em especificar que o Afeganistão não seja usado por grupos “terroristas”. O Taleban resistiu. A resposta: não há uma definição universal de terrorismo.

Pode parecer que os taleban tentam ganhar tempo, mas essa é uma questão existencial para eles. Há décadas o grupo combate governos afegãos e, desde a invasão dos EUA ao país, se insurgiu contra os americanos. Para seus integrantes, a luta é uma resistência aos invasores estrangeiros. Admitir que sua atividade é terrorista seria implodir a narrativa ideológica em torno de sua luta de 18 anos. Se os líderes do Taleban admitirem que cometeram “terrorismo”, isso poderá dividir seus combatentes e minar a união do grupo, afirmaram especialistas.

A reunião entre os taleban e os Estados Unidos ocorre num momento em que os insurgentes intensificam ataques contra as forças de segurança afegãs, com números inéditos de vítimas. Desde o início de 2015, cerca de 30 mil policiais e militares afegãos foram mortos, segundo o presidente do país, Ashraf Gani, apoiado pelos EUA.

Embora a discussão sobre a definição de terrorismo retarde as negociações, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, informado regularmente por seus negociadores, deixou claro que considera os membros do Taleban terroristas. “Tenho uma equipe no terreno agora tentando negociar com os terroristas do Taleban no Afeganistão, tentando encontrar uma maneira de alcançar um Afeganistão que não permaneça em guerra”, disse ele.

Apesar do impasse, especialistas afirmaram estar otimistas. As negociações de mais alto nível até hoje entre diplomatas americanos e o Taleban começaram no dia 25, em Doha, capital do Catar, com a presença do vice-líder dos insurgentes afegãos, mulá Abdul Ghani Baradar. Seu envolvimento alimentou a esperança de que a equipe de negociação tome decisões rapidamente – Baradar raramente esteve presente em negociações diretas.

Segundo o jornal New York Times, diplomatas presentes às negociações disseram que a presença do mulá Baradar ajudou a superar diversos momentos de tensão. Toda vez que houve ameaça de um colapso das conversas, o negociador-chefe americano, Zalmay Khalilzad, reuniu-se com Baradar para descobrir como contornar a situação e retomar as negociações.

“Não se devora um elefante em uma só bocada. E uma guerra que dura 40 anos não se encerra com uma reunião, mesmo que essa reunião se prolongue por quase uma semana”, disse Khalilzad./NEW YORK TIMES

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