'Degenerados sexuais' de Hoover

Diretor do FBI denunciou personalidades e políticos como 'homossexuais e ameaça aos EUA'

É JORNALISTA, ESCRITOR, DUDLEY, CLENDINEN, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, ESCRITOR, DUDLEY, CLENDINEN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2011 | 03h02

Em 1952, pouco antes do Natal, o diretor do FBI, J. Edgar Hoover, informou ao presidente Dwight Eisenhower que o homem nomeado por ele como seu secretário, seu amigo e chefe de gabinete, meu padrinho, Arthur H. Vandenberg Jr., era homossexual.

Tratava-se de algo que fazia parte de um padrão de perseguição que destruiria milhares de vidas e carreiras. Ainda naquele ano, o manual da Associação Americana de Psiquiatria tinha classificado o homossexualismo como um tipo de loucura, e senadores republicanos tinham afirmado que o homossexualismo no governo Truman era uma ameaça à segurança nacional. Hoover - tema do novo filme de Clint Eastwood - estava determinado a deter ameaças como aquela.

Puritano declarado e dotado de uma personalidade compulsivamente burocrática e controladora, ele construiu um intrincado sistema de dossiês a respeito de pessoas influentes, e todos cheios de baixarias. Os mais perigosos eram os volumosos dossiês sobre os "degenerados sexuais" - atores famosos, colunistas de jornal, senadores, governadores, magnatas dos negócios e príncipes da Igreja Católica, para citar apenas alguns.

Havia até uma pasta sobre Eisenhower, registrando rumor de um caso com Kay Summersby, seu motorista na Grã-Bretanha durante a guerra.

Um dos dossiês era dedicado ao meu padrinho pois, embora tivesse anos de experiência na política e nas relações internacionais, ele também bebia, e não mantinha a discrição. Aparentemente, o dossiê continha relatos de certos incidentes com dois homens alistados em Camp Lee, Virgínia, em 1942, antes de ele ter servido ao lado de meu pai e se tornado amigo dele. Pior: na época em que Eisenhower o nomeou para a Casa Branca, ele estava dividindo um apartamento em Washington com outro homem. Isso não era incomum. Mas o outro homem tinha sido detido por causa de alguma acusação de ofensa moral. Isso foi o bastante para Eisenhower, que ficou "estupefato", na descrição feita posteriormente por Hoover a um assessor de Richard Nixon.

Vandenberg não era um lutador. Ele cedeu à pressão. Foi a um hospital, queixando-se de problemas estomacais, e renunciou à nomeação por "motivos de saúde" três meses após a posse de Eisenhower. Ele era um solteiro. Como Hoover. Nunca teve uma namorada, nem se dedicou com seriedade a relacionamentos com mulheres. Como Hoover, Vandenberg parecia passar todo o seu tempo livre na companhia de homens. Hoover, afinal, tinha morado com a mãe até a morte dela, em 1938, e, já naquela época, mostrava-se praticamente inseparável do elegante, magro e discreto Clyde Tolson, contratado por ele em 1928 e promovido numa ascensão meteórica desde então, chegando ao posto de diretor-assistente, segunda posição na hierarquia do FBI, em 1947.

Hoover e Tolson tinham escritórios separados e lares separados, mas almoçavam e jantavam juntos, iam juntos ao trabalho no carro de Hoover, a eventos em Washington, e passavam as férias juntos num mesmo quarto de hotel. Segundo os critérios de Hoover, se os dois não fossem diretor e diretor-assistente do FBI, eles teriam sido citados juntos nos dossiês dos "degenerados sexuais", pois se falava muito a respeito de ambos. Sempre que ocorriam comentários, Hoover enviava agentes para silenciá-los com ameaças.

Vandenberg deixou Washington, mudou-se para a Flórida, fez várias visitas ao Oriente Médio e Ásia a serviço da política externa americana e se tornou um popular palestrante sobre questões das relações exteriores na Universidade de Miami.

Eisenhower voltou a manter contato com ele. Mas, no fim de 1956, o tabloide Confidential, especializado em baixarias e escândalos e provavelmente alimentado pelo FBI, publicou uma constrangedora matéria expondo-o.

Vandenberg renunciou a seu cargo na universidade e desligou o telefone. Nas poucas vezes em que meus pais o viram naquele período, ele parecia ter perdido o foco, estar bebendo demais, e mostrava-se impaciente para ver-se livre da companhia deles. Em 1964, quando Walter Jenkins, assessor e amigo do presidente Lyndon Johnson, foi preso praticando sexo oral num banheiro masculino, o líder americano lembrou aos repórteres que o republicano Eisenhower tivera seu problema também, cujo nome era Arthur Vandenberg.

Suicídio. Deve ter parecido como se aquilo nunca fosse terminar. Mas em 18 de janeiro de 1968, Vandenberg morreu aos 60 anos. Na época, meu pai era editor do Tampa Tribune, e amigos dele no Miami Herald lhe contaram que Vandenberg tinha se matado. Mas essa informação não constava em nenhum registro público.

Quando criança - e mais tarde, quando percebi que era gay e aprendi a viver em paz com isso depois de completar 40 anos -, eu tinha a sensação de que algo devia ter ocorrido com meu padrinho. Ele tinha desaparecido da minha infância. A única lembrança que tenho é dele indo embora de carro, num conversível. Eu tinha apenas 8 anos quando Hoover o expôs. Não sabia qual tinha sido o motivo do seu afastamento. Foi somente no início dos anos 90, quando perguntei a meus pais se eles achavam que Vandenberg fora gay, que eles me contaram da sua morte, e de uma noite, num restaurante espanhol em Tampa, na qual eles ficaram chocados ao ver meu padrinho saindo de uma saleta particular com um jovem aviador um pouco embriagado. Em todos aqueles anos, meus pais nunca tinham falado daquilo, nem mesmo entre si.

Duas semanas após a renúncia de Vandenberg, em 1953, Eisenhower assinou a Ordem Executiva 10.450, que previa a demissão de todos os funcionários federais culpados de "perversão sexual". Mas, aparentemente, ele se sentiu mal por causa do caso de Vandenberg. O Projeto Documentos Kameny, uma iniciativa de recuperação de documentos batizada em homenagem a Franklin Kameny, importante líder na defesa dos direitos civis dos homossexuais que morreu em outubro, descobriu uma série de bilhetes particulares e cartas de Eisenhower e a mulher dele endereçados a Vandenberg, lamentando a ausência dele. "Estou muito preocupado com a sua saúde", escreveu o presidente num destes bilhetes. "Sob certos aspectos, sinto-me culpado."

Quando Hoover morreu, em maio de 1972, seu secretário pessoal destruiu uma grande parte dos arquivos dele. Em dezembro de 1973, o conselho da Associação Americana de Psiquiatria votou pela rescisão a decisão de 1952, que classificava o homossexualismo como insanidade. Eles estavam enganados, disseram os diretores da associação. Aquilo fora um erro. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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