Deixando o 11/9 para trás

Interesses estratégicos levam Riad a fechar contrato de venda de armas de US$ 60 bilhões com Washington

IAN BLACK / THE GUARDIAN, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2010 | 00h00

A compra de armas americanas é crucial para a estratégia do reino saudita de garantir sua liderança militar no Golfo e confrontar a influência do Irã. Um acordo com os EUA para a compra de US$ 60 bilhões em armas, que veio a público na segunda-feira, inclui significativas capacidades ofensivas - por isso os repetidos alertas de Teerã referentes ao que considera uma "desestabilização".

Em público, os sauditas e seus parceiros no Conselho de Cooperação do Golfo apoiam o uso de meios diplomáticos para deter as supostas ambições nucleares do Irã, mas expressam maior preocupação a portas fechadas, dizem diplomatas. O Irã insiste que seu programa nuclear tem fins civis, e não militares.

As relações entre Washington e Riad foram muito prejudicadas pelos ataques de 11 de setembro de 2001 e pela identificação das origens sauditas de Osama bin Laden e da Al-Qaeda.

Mas interesses estratégicos coincidentes e pressões provenientes da indústria dos armamentos e da recessão ajudaram a reduzir as divergências. A venda de equipamento militar americano no Golfo dobrou de volume entre os períodos de 2001-2004 (US$ 19 bilhões) e 2005-2008 (US$ 40 bilhões).

É notável que este acordo tenha enfrentado pouca oposição por parte do lobby israelense, que no passado agiu para impedir os sauditas de adquirir equipamento avançado. Atualmente, a Arábia Saudita apoia também a iniciativa árabe de paz, que oferece o reconhecimento de Israel em troca de um Estado palestino. Diz-se que o rei Abdullah foi convencido da sinceridade do compromisso americano com Riad e forçou a aprovação da encomenda de armas apesar de sua força aérea preferir dividir as compras entre americanos e europeus.

A tensão entre Riad e Teerã aumentou nos últimos meses, e os regimes árabes têm pressionado os EUA a adotar medidas mais duras. Em reunião com Hillary Clinton em Riad em fevereiro, o ministro saudita das Relações Exteriores, Saud al-Faisal, afirmou que a ameaça nuclear iraniana exige "uma solução mais imediata" do que as sanções.

Trata-se de um reflexo da convergência das visões estratégicas dos EUA, de Israel e dos Estados árabes conservadores em relação às supostas ambições nucleares do Irã e sua tentativa de ampliar a própria influência na região.

Mas a Arábia Saudita nega os boatos de que permitiria que aeronaves israelenses atravessassem seu espaço aéreo no caso de um bombardeio a instalações nucleares em território iraniano. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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