AFP PHOTO / LA NACION / HO
AFP PHOTO / LA NACION / HO

Delator reconhece kirchnerista como receptor de propina na Argentina

Motorista que registroupor 10 anos subornosem cadernos fotografou ação de seu chefe, identificado agora por empresário

O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2018 | 05h00

BUENOS AIRES - O motorista argentino Oscar Centeno, que anotou em cadernos relatos minuciosos de entrega de propina de empresários a kirchneristas entre 2005 e 2015, também fotografou algumas destas operações. Uma dessas imagens, publicada no domingo, 5, pelo jornal Clarín, mostra um homem com uma sacola em que haveria dinheiro vivo. 

O empresário Juan Carlos de Goycoechea reconheceu a pessoa na foto, feita na porta de seu escritório, como sendo o kirchnerista Roberto Baratta, então número 2 do Ministério do Planejamento e chefe do motorista.

Depois de se entregar na sexta-feira, Goycoechea, que estava esquiando quando o escândalo foi conhecido na quarta-feira, aceitou participar como delator, uma figura nova no sistema legal argentino. 

Goycoechea era o diretor do grupo de energia espanhol Isolux Corsan, que obteve contratos milionários durante o kirchnerismo. Segundo meios de imprensa argentinos, Goycoechea afirmou à Justiça que havia pressões do Ministério do Planejamento para que os empresários fizessem “colaborações” cuja finalidade seria financiar campanhas, em troca de contratos de grandes obras. 

Goycoechea negou, entretanto, que o montante pago por sua empresa chegasse aos US$ 12,8 milhões que o juiz Claudio Bonadio menciona na ação judicial. O empresário foi demitido da Isolux em março de 2017, depois de uma investigação interna sobre irregularidades nos contratos na Argentina. 

Segundo o relato de Centeno, os pagamentos de propina às vezes eram feitos na Quinta de Olivos (residência oficial do presidente), na Casa Rosada ou no apartamento da senadora e ex-presidente Cristina Kirchner no bairro Recoleta. Desde que a investigação foi divulgada, a Justiça prendeu oito ex-funcionários e oito empresários, entre eles um ex-diretor da IECSA, companhia que pertenceu ao grupo empresária da família do presidente Mauricio Macri.

Entre outros 20 indiciados está Cristina, chamada a depor no dia 13. O ex-secretario-geral da presidência Oscar Parrilli, outro indiciado, pediu a anulação da causa. Ela considera “estranho” que o processo tenha sido distribuído justamente a Bonadio, que conduz as principais investigações contra a ex-presidente. Cristina conserva um eleitorado fiel e seria a principal rival de Macri na votação presidencial de 2019. O governo Macri passa por instabilidade, após um pedido de empréstimo ao FMI e dificuldade para controlar a inflação.

Centeno foi libertado na sexta-feira, após aceitar colaborar como delator. Ele conta agora com proteção para si, sua mulher e seus 13 filhos. O motorista afirmou ter queimado os originais em maio na churrasqueira de sua casa. 

O juiz Bonadio tem apenas as cópias, escaneadas em abril pelo repórter Diego Cabot, do jornal La Nación. O jornalista teve acesso aos originais, repassados a ele em janeiro por um amigo do motorista, o policial Jorge Bacigalupo, que por sua vez recebeu os originais de Centeno em outubro.

Segundo Bacigalupo, Centeno pediu os cadernos de volta e o jornal os devolveu depois de fazer fotocópias, que chegaram à Justiça. A ex-mulher de Centeno, Hilda Horovitz, disse em depoimento que o motorista queria usar os cadernos para extorsão e para assegurar emprego depois do fim do governo de Cristina. / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.