Victor Moriyama/The New York Times
Victor Moriyama/The New York Times

Demanda de ricos deixa países pobres sem máscaras e equipamentos médicos

África, América Latina e partes da Ásia, que já lutam contra problemas crônicos de saúde pública, não conseguem competir no mercado global por reagentes, respiradores e materiais de proteção, que têm sido desviados para Europa e EUA

Jane Bradley / The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2020 | 04h00

Caixas de máscaras arrancadas de aviões de carga no aeroporto. Países que pagam o triplo do preço de mercado para vencer o leilão de respiradores. Acusações de “pirataria moderna” contra governos que tentam garantir suprimentos. Enquanto EUA e Europa competem entre si para adquirir material escasso para combater o coronavírus, países pobres ficam de mãos abanando na guerra por equipamentos médicos. 

Governos da África e da América Latina já foram informados pelos fabricantes de que os pedidos de kits de testes para covid-19 não poderão ser entregues nos próximos meses, pois quase tudo está indo para EUA e Europa. O mundo inteiro reclama do aumento de preços dos equipamentos de proteção. 

A enorme demanda global por máscaras e novas distorções no mercado forçaram alguns países em desenvolvimento a procurar ajuda da Unicef. Etleva Kadilli, que supervisiona os suprimentos na agência da ONU, disse que estava tentando comprar 240 milhões de máscaras para 100 países, mas até agora conseguiu só 28 milhões.

“Há uma guerra nos bastidores e estamos preocupados com os países pobres”, disse a Catharina Boehme, diretora da Fundação para Novos Diagnósticos Inovadores, que colabora com a Organização Mundial da Saúde para ajudar os mais pobres a ter acesso a exames médicos.

Na África, América Latina e partes da Ásia, muitos países já estão em desvantagem, com sistemas de saúde sucateados e carentes de equipamentos. Um estudo recente apontou que alguns países periféricos têm apenas uma cama de UTI por 1 milhão de habitantes.

Até agora, o mundo em desenvolvimento registrou menos casos e mortes por covid-19, mas especialistas temem que a pandemia possa ser devastadora para os mais pobres. 

 

O teste é a primeira defesa contra o vírus e uma ferramenta importante para impedir que muitos pacientes sejam internados. A maioria dos fabricantes quer ajudar, mas o setor que produz testes e reagentes está lidando com uma enorme demanda.

“Nunca houve falta de reagentes até agora”, disse Doris-Ann Williams, executiva da Associação Britânica de Diagnóstico In Vitro, que representa produtores e distribuidores dos testes de laboratório para detectar a covid-19. “Se fosse apenas um país com epidemia, tudo bem, mas todos querem a mesma coisa ao mesmo tempo.”

Segundo Boehme, os governos estão chamando pessoalmente os executivos das empresas para exigir acesso a suprimentos vitais. Alguns países até se oferecem para enviar jatos particulares. 

No Brasil, Amilcar Tanuri não conta com jatinhos particulares. Ele dirige os laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que funciona com metade da capacidade porque os reagentes estão sendo desviados para países ricos. “Se você não tem testes confiáveis, fica cego”, disse. “Este é o começo da curva da epidemia. Por isso, estou preocupado com o fato de o sistema de saúde pública entrar em colapso rapidamente.” 

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Tanuri entrou em contato com empresas em três continentes, tentando obter reagentes para as 200 amostras de teste que seus laboratórios recebem todo dia. Foi quando descobriu que os EUA e a Europa já haviam comprado meses de produção. “Se comprarmos para chegar em 60 dias, é tarde demais. O vírus se espalha mais rápido do que podemos esperar.”

A mesma coisa acontece na África do Sul, onde autoridades montaram uma “sala de guerra” com 20 pessoas que passam o dia telefonando para fornecedores. “Os fabricantes dizem que a produção não dá conta da demanda”, disse Kamy Chetty, diretora do Laboratório Nacional de Saúde da África do Sul.

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