Demissão de funcionário teria causado a crise na Opaq

A recente demissão de um funcionário da Opaq (Organização para a Proscrição das Armas Químicas), de nacionalidade norte-americana e suspeito de estar muito mais preocupado em zelar pelos interesses do governo dos Estados Unidos do que pelos da organização para a qual trabalhava, foi a gota d?água que transbordou, deflagrando a crise que levou Washington a pedir a cabeça do diretor-geral da organização, o embaixador brasileiro José Maurício Bustani.Essa versão está circulando junto a áreas diplomáticas de Haia para explicar a reação do governo dos Estados Unidos que assumiu a forte campanha para a destituição do diretor-geral da organização. O "curioso funcionário" da Opaq, segundo informações obtidas em Haia, estaria mantendo contatos diretos com serviços especiais de informação dos Estados Unidos. Diplomatas de vários países servindo em postos em Haia, Genebra, Paris e outras capitais européias que abrigam organizações internacionais não escondem um crescente mal-estar pela nova postura do governo dos Estados Unidos, que, convencidos de seu poder e do fato de serem a única grande potência mundial, procuram impor suas posições de cima para baixo, sem qualquer entendimento prévio, mesmo com seus principais aliados.Essa "crescente arrogância", aliada ao aumento do isolacionismo norte-americano , segundo certos embaixadores, não ocorre apenas nessa área sensível e de segurança, mas também nas demais, inclusive na econômica. Por exemplo, as iniciativas restritivas às exportações de aço. Nesse mesmo contexto, cita-se, por exemplo, o isolamento diplomático europeu na ofensiva norte-americana no Oriente Médio e a preparação do terreno para uma eventual intervenção militar no Iraque. Os países europeus foram praticamente marginalizados nas consultas feitas pelo vice-presidente Dick Cheney aos países árabes e pelo próprio mediador de um cessar-fogo entre Israel e a Autoridade Palestina, o norte-americano Anthony Zini. Nestes últimos dias, na capital holandesa, houve manifestações de solidariedade ao embaixador brasileiro, reconhecidamente um funcionário de grande integridade e talento e que tem marcado sua gestão por uma grande independência (provavelmente estaria pagando o preço) e também pelo rigor na condução de uma área das mais delicadas, segundo diplomatas servindo em Haia. Alguns comparam aspectos dessa crise aos que envolveram o egípcio Boutros Galli, quando sua reeleição para a secretaria-geral da ONU acabou sendo vetada pelos Estados Unidos. Apesar de alguma semelhança, lembra-se que, neste caso, havia mais argumentos a favor dos Estados Unidos, que reuniam condições políticas para defender uma candidatura bem mais próxima de seus interesses.Ora, no caso da Opaq, além de ser esta uma organização secundária se comparada à ONU, trata-se de um orgão mais técnico do que político. Isso revela também a desconfiança cada vez maior do governo norte-americano em relação a certos organismos multilaterais.Os EUA têm adotado uma posição cada vez mais impositiva e buscado a subserviência dos funcionários internacionais a seus interesses, o que certamente não foi possível com o embaixador José Maurício Bustani. Alguns diplomatas brasileiros na Europa, ouvidos sobre a versão que corre em Haia sobre as verdadeiras causas da irritação norte-americana com o diretor-geral brasileiro da Opaq, admitiam como muito provável que a demissão do funcionário de nacionalidade norte-americana possa estar na origem dessa crise, apesar do embaixador José Maria Bustani ter sido eleito com o apoio dos norte-americano, ainda no governo Bill Clinton, cuja política não era a mesma.

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