EFE/Julien De Rosa
EFE/Julien De Rosa

Demissão de general abre crise entre Macron e Forças Armadas

De Villiers, chefe do Estado-Maior, pediu demissão após reclamar de redução de orçamento e presidente dizer que posição era 'indigna' do cargo

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2017 | 17h00

O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da França, general Pierre de Villiers, pediu demissão nesta quarta-feira após uma semana de choque direto com o presidente Emmanuel Macron. O oficial sofreu uma inédita reprimenda pública em 13 de julho depois de reclamar a deputados na Comissão de Defesa da Assembleia Nacional dos cortes de € 850 milhões no orçamento do Ministério da Defesa. A sessão do Parlamento era fechada, mas seu conteúdo vazou, e levou o presidente a definir a posição como "indigna" do cargo. 

O confronto entre Macron e De Villiers teve início com uma frase específica do oficial, que irritou o presidente. Referindo-se aos cortes anunciados pelo governo dois dias antes, o general afirmou na audiência do Parlamento do dia 12: "Não vou deixar me f… ". 

A declaração logo veio à tona e, no dia seguinte, Macron se manifestou em uma reunião com oficiais, na qual ressaltou ter se comprometido a aumentar o orçamento militar de € 34,2 bilhões em 2018 a € 50 bilhões em 2022. "Não é digno que alguns debates sejam levados à praça pública", reclamou, frisando a seguir: "Eu sou o chefe".

No mesmo momento, De Villers publicou um texto no jornal Le Figaro advertindo para a contradição entre as missões cada vez maiores das Forças Armadas e seu orçamento em decréscimo. A insistência na crítica tornou a atmosfera glacial na cerimônia do 14 de Julho, quando ambos desfilaram em carro aberto pela Avenida Champs-Elysées.

Na terça-feira, o general demitiu-se do posto, dizendo não poder exercer suas atribuições com tal orçamento. "Porque todo mundo tem suas insuficiências, ninguém merece ser seguido cegamente", argumentou De Villiers.

Nos meios militares, o atrito abriu uma crise jamais vista na 5.ª República (desde 1958) entre o presidente e o chefe das Forças Armadas. "A humilhação imposta ao chefe das Forças Armadas é uma humilhação à instituição, no momento em que os soldados lutam sem os meios necessários. Não é justo que recebam essa recompensa", protestou ao Estado o general Vincent Desportes, hoje consultor de assuntos militares, que comparou a atitude do presidente à deriva autoritária do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.

"O que Macron reclamou de De Villiers foi de ter dado um parecer técnico diferente do que o Eliseu pensa. Mas não há nada de errado em falar à Comissão de Defesa do Parlamento. Reagir dessa forma me lembra um pouco o que se passa na Turquia. É grave."

Acusado também pela oposição, Macron foi defendido por raras vozes nesta quarta-feira. Coube a um ex-adversário político, o ex-primeiro-ministro Manuel Valls, sair em sua defesa. "No momento em que nossos soldados estão engajados no exterior e no nosso solo nacional, a unidade se impõe", afirmou. "Apoio a escolha de Emmanuel Macron."

Para o lugar de De Villiers, o presidente nomeou ontem o general François Lecointre, veterano oficial da guerra da Bósnia.

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