Demissão de militar agrava crise política no Paquistão

O primeiro-ministro paquistanês, Yousef Raza Gilani, destituiu ontem o secretário da Defesa, Naeem Khalid Lodhi, um general da reserva muito próximo do comandante do Exército. A medida agravou a crise política entre o governo civil e os poderosos líderes militares do Paquistão.

ISLAMABAD, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2012 | 03h00

Gilani acusou Lodhi, um ex-comandante do Exército, de "mau comportamento e atuação ilegal" e de "criar mal-entendidos entre as instituições do Estado". O ex-general foi substituído por um assessor civil, Nargis Sethi.

Oficiais militares ameaçaram ontem não trabalhar com o novo secretário, destacando a possibilidade de ocorrer uma ruptura institucional. "O Exército não reagirá com violência, mas não cooperará com Sethi", disse um oficial, que pediu anonimato.

As tensões aumentaram após a publicação de um memorando, supostamente elaborado pelo governo paquistanês pouco após o ataque americano que matou Osama bin Laden, que continha um pedido de ajuda para conter um golpe militar no país.

O general Ashfaq Kayani, comandante do Exército, convocou para hoje uma reunião de emergência com seus oficiais.

O secretário da Defesa, em geral, é nomeado com consentimento militar e é uma espécie de ponte com o governo civil. Ele tem mais poderes do que o ministro da Defesa, cargo que é preenchido por um político do partido governista.

Antiamericanismo. A demissão de Lodhi ocorreu porque os militares ameaçaram o primeiro-ministro, que tinha dado declarações contra o general Kayani.

Gilani acusou o líder militar e o general Ahmad Pasha, diretor do serviço de inteligência do Paquistão, de formar um "Estado dentro do Estado". As declarações foram entendidas como uma advertência de que poderiam ser afastados.

A assinatura do secretário de Defesa é necessária para a nomeação de líderes militares. A nomeação de um civil seria uma tentativa do governo de controlar os militares. Especulações sobre uma eventual demissão dos dois comandantes foram alimentadas por notícias divulgadas pela imprensa antiamericana do Paquistão.

Analistas paquistaneses afirmaram que a demissão de Lodhi pode ser um sinal negativo de que o conflito entre o Exército e o governo civil atingiu um estágio crítico.

"É uma decisão desesperada", disse Ikram Sehgal, ex-oficial militar. "Eles querem que o Exército reaja e dê um golpe." Hasan Askari Rizvi, analista militar, disse que a crise piora a situação do governo civil. "Se o premiê tentar demitir o comandante do Exército, as consequências serão perigosas." / NYT

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