Demissão de militares é tentativa de Morsi consolidar seu poder

Cenário: Ernesto Londoño / W.Post

O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2012 | 03h02

O presidente do Egito, Mohamed Morsi, foi obrigado a demitir o dois comandantes do Exército no domingo, numa decisão corajosa para tirar o poder das Forças Armadas e marginalizar os remanescentes do regime de Hosni Mubarak. Os comandantes demitidos saíram sem alarde, mas analistas afirmam que a medida pode provocar uma reação contrária e polarizar mais um país onde muitas pessoas estão cautelosas com seu primeiro presidente islâmico - Morsi vem da Irmandade Muçulmana, grupo islamista que há décadas sonhava em governar o Egito.

"É um momento de transformação", disse Zeinab Abul-Magd, professor de história da Universidade Americana do Cairo. "Agora, oficialmente, é um Estado da Irmandade. Hoje, eles estão no pleno controle." A eleição de Morsi, em junho, foi aclamada como um divisor de águas. O esforço dos militares para consolidar sua autoridade parecia apontar para uma presidência frágil. A destituição do marechal Mohamed Tantawi e de seu vice no Ministério da Defesa, Sami Anan, sugere que a Irmandade está disposta a agir mais rapidamente do que analistas previam.

Morsi afirmou que suas decisões não pretendem "provocar embaraços" a qualquer pessoa ou instituição. "Quero que as Forças Armadas se consagrem a uma missão que é sagrada, proteger a nação", disse. No domingo, ele nomeou o juiz Mahmoud Mekki como seu vice-presidente, o que pode fortalecer sua capacidade de responder a desafios legais e processos que poderiam afetar a transição democrática.

Com a destituição de Tantawi, Morsi afastou um antigo interlocutor dos Estados Unidos em um país que recebe bilhões de dólares de ajuda militar em troca da manutenção da paz com Israel. A ação pegou a Casa Branca desprevenida. "Não devemos cantar vitória ainda", afirmou Hadi Hamid especialista do Brookings Doha Center. "O Estado dentro do Estado pode retaliar", disse em referência aos aliados de Mubarak.

As chances de um contragolpe dependem de quanto a reforma foi negociada prematuramente. As autoridades não informaram se os militares destituídos negociaram um acordo contra possíveis processos criminais por sua conduta durante a ditadura. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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