Demissão de ministro ligado a Chávez expõe divisão no governo de Maduro

A demissão do ministro do Planejamento, Jorge Giordani, expôs ontem divisões no governo do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Chavista histórico e um dos maiores defensores do controle do câmbio no país, Giordani publicou uma carta em dois sites governistas criticando o presidente.

CARACAS, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2014 | 02h04

Segundo Giordani, o governo de Maduro "não tem liderança", causa uma sensação de "vazio de poder" e cede facilmente às pressões dos setores privados que querem o "retorno do modelo capitalista ao país". Ele lamentou que desde a morte de Hugo Chávez o governo tenha começado a ceder aos setores privados que lutam contra a revolução bolivariana.

"É doloroso e alarmante uma presidência que não transmite liderança, que parece querer se consolidar por meio da repetição de explicações, mas sem a devida coerência", diz o texto da carta, intitulado Testemunho e responsabilidade perante a historia, que foi publicada nos sites chavistas Rebelion.org e Aporrea.org.

Na carta, Giordani disse ainda que a debilidade da presidência permitiu o surgimento de "centros de poder", destruindo a tarefa revolucionária de instituições como o Ministério das Finanças e o Banco Central, além de "dar como fato consumado a independência da PDVSA do poder central".

A PDVSA, estatal petroleira da Venezuela, é a maior fonte de receita do Estado e é comandada pelo ministro do Petróleo e da Energia, Rafael Ramírez, um pragmático que ocupa também a vice-presidência para a área econômica.

Críticas. Maduro anunciou a demissão de Giordani em discurso na noite de terça-feira, em Petare, no Estado de Miranda. "Quero agradecer ao professor Jorge Giordani, companheiro de todos esses anos de luta, companheiro do comandante Chávez e do governo revolucionário da Venezuela por sua contribuição", disse o presidente.

Para o lugar de Giordani, Maduro nomeou o geógrafo Ricardo Menéndez, que ocupava a pasta da Educação Universitária e já foi ministro de Ciência e Tecnologia. "Pedi ao ministro Ricardo Menéndez, um geógrafo e estudioso da economia, que assuma como ministro do Planejamento, dedicando-se a essa tarefa de maneira específica", disse o presidente.

A ex-deputada venezuelana María Corina Machado, que teve o mandato cassado em março, disse ontem que a carta de Giordani é uma "prova da degradação moral do regime". "É uma confissão de irresponsabilidade e mostra a destruição do país", disse María Corina, que é acusada pelo governo de planejar o assassinato de Maduro.

Para alguns analistas venezuelanos, a saída de Giordani do Ministério do Planejamento significaria que os chavistas moderados e pragmáticos, como Ramírez, estariam ganhando espaço no governo.

Giordani era um dos colaboradores mais próximos de Chávez e sua demissão também poderia indicar mais uma alteração no sistema de câmbio da Venezuela, responsável pela escassez de produtos básicos e por uma inflação anual de 60%, uma das maiores do mundo.

Substituições. Além de Giordani, Maduro trocou outros três ministros: da Alimentação, Félix Osorio; da Educação Universitária, Ricardo Menéndez (que assumiu o lugar de Giordani); e do Transporte Aquático e Terrestre, García Plaza. / REUTERS, AP e AFP

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