Demissão não resolve problemas maiores na área de segurança

CENÁRIO: David Rothkopf / F. POLICY

O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2014 | 02h01

A guerra contra Chuck Hagel começou assim que ele foi nomeado secretário da Defesa pelo presidente Barack Obama. Em Washington, corria o boato de que Hagel, apesar dos anos que passou no Senado e de suas realizações no mundo dos negócios e na área militar, não tinha estofo para o cargo. Hoje, no entanto, com a destituição de Hagel, muitos dos que duvidavam dele acham que ele foi injustiçado.

Há dois meses, um rumor espalhado por membros do governo dizia que Hagel poderia se tornar o bode expiatório na área de segurança nacional. Ele não era visto como um secretário de Defesa enérgico e, segundo as palavras de um dos assessores mais antigos de Obama, era considerado um secretário que buscou se integrar mais ao seu ambiente, mas não à política do governo.

Hagel estava se tornando um porta-voz das crescentes frustrações dos líderes militares do Departamento de Defesa em relação às reações incoerentes, em termos estratégicos, do presidente e de sua equipe da Casa Branca, particularmente no que diz respeito à crescente ameaça representada pelo Estado Islâmico.

A nomeação de Hagel pode ter sido um sinal do erro de Obama. Hagel não tinha o know-how burocrático da segurança nacional e a liderança de um Bob Gates ou de um Leon Panetta, dupla muito mais forte que serviu ao presidente no Pentágono durante o primeiro mandato. Hagel mostrou como era limitado o círculo de pessoas que o presidente frequentava na área de Defesa. No entanto, ele não é o problema. Com certeza, ele tem se mantido distante, passando muito tempo em viagens. No entanto, isto se deve, em grande parte, ao fato de que o governo isola os próprios membros do gabinete mais do que qualquer outro.

Obama tem diversas opções excelentes que provavelmente considerará para o cargo mais importante do Pentágono. Michele Flournoy, ex-subsecretária de Defesa, teria sido uma escolha melhor quando Hagel foi nomeado e continua sendo uma escolha ótima. Assim como teria sido o vice-secretário de Defesa, o brilhante Ash Carter, ou outro, John Hamre, para o mesmo cargo.

A nomeação de qualquer um deles não resolveria os problemas do governo e, sinceramente, qualquer um que recebesse a oferta teria de pensar muito e refletir se deveria aceitá-lo ou não sem a garantia de que a Casa Branca lhe daria (e à alta cúpula militar) o espaço de manobra para cumprir as missões que lhe fossem confiadas. O indicado teria de perguntar quais seriam as mudanças no Conselho de Segurança Nacional para garantir que a concentração de poder fosse revertida e se esse governo que fala tanto em "soluções para o governo como um todo" começaria de fato a buscá-las.

Além disso, há um desafio maior e uma preocupação maior pairando sobre tudo isto. O desafio é o fato de que o Conselho de Segurança Nacional e a equipe de segurança nacional são apenas reflexo do que o presidente pretende. Se Obama não está disposto a mudar e desfazer os erros dos últimos anos, não importa quantos secretários virão. Se a decisão de destituir Hagel é, como parece, destinada a evitar que sejam tratados os verdadeiros problemas, então é pior do que um gesto vazio. Será um sinal de que o presidente resiste a encontrar uma maneira de defender efetivamente os interesses dos EUA na área de segurança nacional. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É ANALISTA DO CARNEGIE ENDOWMENT FOR

INTERNATIONAL PEACE

Mais conteúdo sobre:
ObamaEUASegurança

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.