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Demissão no Facebook

Rede Social agiu como uma organização qualquer, que se defende ao se sentir ameaçada

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2018 | 05h00

A demissão do diretor de Comunicações e Políticas do Facebook, Elliot Schrage, encerra um capítulo na novela do papel da rede social na eleição do presidente Donald Trump e de suas manobras para preservar seu modelo de negócios com base no “impulsionamento” pago de posts e na venda de dados de seus usuários.

Na noite de quarta-feira, quando as atenções dos americanos estavam voltadas para o feriadão de Ação de Graças, a empresa distribuiu um comunicado interno. Nele, Schrage anunciou a rescisão do contrato da empresa de relações públicas Definers Public Affairs, assumiu a responsabilidade pela contratação e pediu desculpas.

Criada em Washington, a Definers aplica, em favor de empresas clientes, os métodos de desqualificação de adversários políticos desenvolvidos na capital americana. O chefe da filial no Vale do Silício é Tim Miller, ex-porta-voz do republicano Jeb Bush, ex-governador da Flórida.

Quando, em setembro do ano passado, começaram a sair reportagens sobre a forma como o governo russo usou o Facebook para atacar a campanha da candidata democrata Hillary Clinton, a rede social ampliou o seu contrato com a Definers. A agência passou então a plantar, em sites parceiros, matérias a favor do Facebook e contra seus críticos, incluindo o megainvestidor George Soros e a Apple.

Uma extensa reportagem publicada no dia 14 pelo jornal The New York Times, que mobilizou 5 repórteres e 50 fontes, expôs manobras do Facebook para evitar que investigações internas sobre a extensão do uso da plataforma por agentes russos chegassem, primeiro, aos ouvidos do conselho de administração e, depois, do público externo.

Enquanto Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, vinha a público colocar panos quentes sobre a contaminação da plataforma pelos operadores russos - que ele nem sequer citou -, Sheryl Sandberg, diretora de operações da companhia, tentava limitar o escopo das investigações internas e a circulação da informação a respeito de seus resultados. O diretor de Segurança do Facebook, Alex Stamos, entrou em confronto com essa conduta e pediu demissão.

A reportagem do Times expõe as ambiguidades da imagem de “neutralidade” que plataformas como Facebook, Twitter, Google e LinkedIn tentam cultivar. Durante a campanha de 2016, Trump postou no Facebook que os muçulmanos deveriam ser totalmente impedidos de entrar nos EUA. O post teve 15 mil compartilhamentos.

Zuckerberg, um dos criadores da entidade Moving America Forward, de apoio aos imigrantes, ficou perplexo, e perguntou a Sandberg e a outros executivos da empresa se o post violava as regras de uso do Facebook.

A palavra final coube a Joel Kaplan, operador republicano contratado por Sandberg, ela própria uma democrata, para ajudar a rede social a entender o público conservador. A posição de Kaplan foi que Trump era uma figura pública importante e fechar sua conta ou remover seu post poderia ser considerado censura. Ele usou uma expressão equivalente, no Brasil, a “não vamos cutucar a onça com vara curta”.

Em toda essa novela, o Facebook agiu como uma organização qualquer, que se defende quando se sente ameaçada. A verdade só veio à tona porque havia jornalistas investigando o que realmente estava se passando dentro e fora da companhia.

O mesmo se deu com o uso de dados de 50 milhões de usuários do Facebook pela empresa Cambridge Analytica, que lhe permitiram construir perfis psicológicos dos eleitores britânicos e americanos e enviar-lhes posts que os induziam a votar em favor do Brexit e de Trump. O esquema foi revelado em março por reportagens do New York Times e do jornal inglês The Guardian, em um esforço conjunto. Neste momento em que muitas pessoas acreditam que não precisam da “grande mídia” para se informar, é interessante pensar sobre tudo isso.

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