Demitidos de Cuba terão chances reduzidas

Abertura de cooperativas para criar coelhos ou fabricar tijolos não deve ser suficiente para absorver os 500 mil funcionários que serão dispensados

Denise Chrispim Marin CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2010 | 00h00

Embora o presidente de Cuba, Raúl Castro, tenha mencionado que "ninguém ficará abandonado a sua sorte", serão poucas as oportunidades de um novo emprego para boa parte dos 500 mil funcionários públicos que serão demitidos nos próximos seis meses.

De acordo com o especialista cubano Arturo López-Levy, professor da Universidade de Denver, Colorado, as reformas anunciadas há dois dias pelo governo demandarão "tempo" para ser maturadas e para acomodar a situação econômico-social que causarão na ilha. Pelo menos 100 mil desses desempregados não terão chance nenhuma de encontrar nova colocação.

"Sem outras mudanças urgentes, levará tempo para se desenvolver em Cuba setores privado e cooperativo competitivos, com capacidade de absorver os novos desempregados", afirmou López-Levy ao Estado. "Cuba deu um passo significativo no caminho da reforma, que será gradual, mas irreversível. Isso é só o começo."

De acordo com um documento oficial obtido ontem pela Associated Press, Havana pretende estimular a produção cooperativa, a abertura de pequenos negócios e o trabalho autônomo, como forma de recolocar parte desses ex-servidores públicos.

Criação de coelhos. Entre as sugestões oferecidas estão a criação de coelhos, a pintura de prédios, a fabricação de tijolos, a coleta de lixo, a condução de balsas pela Baía de Havana, além da instalação de oficinas de encanamento, carpintaria e funilaria.

O documento de 26 páginas informa que, dentre os 500 mil servidores a ser demitidos, os primeiros serão os funcionários dos Ministérios do Açúcar, de Saúde Pública, de Turismo e de Agricultura, assim como os que recebem um salário incompatível com sua produtividade e os que são indisciplinados.

Trata-se da desmontagem da "ofensiva revolucionária", modelo que o ex-líder Fidel Castro adotou em 1968, que foi ancorada na estatização das pequenas empresas. Mas, segundo López-Levy, não há fundos para atrair investimentos produtivos em Cuba. Esse entrave poderia ser contornado com uma abertura para que cubanos residentes no exterior participem das reformas. Uma "oportunidade perdida", na opinião do especialista, é a demora da Casa Branca em acabar com a proibição para que turistas americanos desembarquem na ilha.

As mudanças exigirão ainda a adoção de um sistema regulatório, de regras contratuais, de lei de falência. Segundo o López-Levy, a concessão de terras para recuperação e cultivo é um exemplo de reforma adotada sem as medidas paralelas necessárias, como o acesso a linhas de financiamento. Cerca de 54% das propriedades entregues desde 2008 continuam improdutivas. "Convém olhar as possibilidades de desenvolvimento do setor privado com cautela", afirmou. "O mercado de administradores cubanos é limitado, com escassa educação sobre operações em condição de mercado e com reduzidas conexões internas e externas para levantar fundos iniciais de investimento."

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