Lorne Campbell / Reuters
Lorne Campbell / Reuters

Democracia padece do excesso de democracia

Alguns pesquisadores acreditam que escolhas diretas favorecem crescimento do populismo

Max Fisher, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2019 | 05h00

Em seus primeiros dias como premiê, Boris Johnson tentou usar algumas das táticas mais testadas da era populista. Em todo o mundo democrático, este manual de estratégias tem encontrado um sucesso cada vez maior. No Reino Unido, porém, os movimentos de Johnson deram errado. 

O Reino Unido, apesar do caos político, está rejeitando as tendências populistas globais. Daniel Ziblatt, cientista político da Universidade Harvard, que estuda o declínio democrático, deu o crédito dessa resistência a vários aspectos da democracia britânica. 

As pessoas acham que o sistema parlamentar é mais resistente a líderes carismáticos e táticas de jogo duro do que o modelo presidencialista. E, sob sua Constituição não escrita, as normas são extraordinariamente importantes e bem guardadas. Mas Ziblatt enfatizou repetidamente uma lição mais ampla que pode ser desconfortável.

A democracia britânica é, de certa forma, menos diretamente democrática do que a de outros sistemas ocidentais. Isso coloca menos poder nas mãos dos eleitores e na base do partido, e mais nas mãos dos funcionários do partido e dos guardiões institucionais. “Os partidos são muito mais fortes (no Reino Unido) – esse é o motivo”, disse Ziblatt. “Comparado a países como os EUA, ainda é um sistema incrivelmente fechado.” 

Isso não torna o Reino Unido imune ao populismo, e pode ter agravado a suspeita de que as elites britânicas sejam distantes. Mas fortaleceu as barricadas institucionais do Reino Unido contra os efeitos da polarização e do populismo.

Isso sugere, disse Ziblatt, um possível fator na ascensão do populismo que recebe atenção cada vez maior dos estudiosos: uma onda de reformas que tornou as democracias mais democráticas pode também ter corroído esses controles internos.

Os partidos, que antes escolhiam os candidatos, agora permitem que os membros do partido decidam em primárias. Referendos e iniciativas populares são mais comuns. As mídias sociais e a captação de recursos pela internet abriram as portas para quem está de fora. As reformas eleitorais tornam mais fácil para nomes de fora da política concorrer e vencer.

Essas reformas deram poder aos eleitores, mas à custa de instituições e de normas destinadas a restringir os políticos. Agora é mais fácil para alguém como Donald Trump superar o establishment que controla um partido.

Em um livro que descreve o colapso das democracias, que ele escreveu com um colega cientista político de Harvard, Steven Levitsky, Ziblatt identificou o excesso de democracia direta como um fator de risco, mas constatou que a conclusão contradizia a crença na democracia como uma força definitiva para o bem. “Quando Steve e eu saímos fazendo palestras, essa era sempre a coisa menos popular que dizíamos”, disse Ziblatt.

Há um apoio crescente a essa visão, ainda que impopular. Um livro recente dos cientistas políticos Frances McCall Rosenbluth e Ian Shapiro constatou que algumas reformas pioram a qualidade e a capacidade de resposta da democracia. Mas o Reino Unido ficou atrasado ao instituir tais reformas. Onde ele as testou, por exemplo, ao permitir uma eleição aberta de líderes partidários, as forças populistas aumentaram. Onde o Reino Unido ainda não a seguiu, suas instituições se mantiveram.

Os deputados britânicos, por exemplo, ainda recebem a indicação do partido para concorrer em uma eleição, em vez de serem escolhidos em prévias. Assim, enquanto Johnson pode se tornar líder do partido apelando a seus membros ideológicos, sua própria coalizão pode ignorar esses eleitores, como fizeram ao interromper a estratégia do premiê sobre o Brexit. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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