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Democracia e autocracia

China vem criando um modelo de colonização com base na dependência econômica

Lourival Sant'Anna*, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2021 | 23h59

O Partido Comunista Chinês comemorou na semana passada 100 anos de existência, dos quais, 72 no poder. O centenário coincide com a reinterpretação, por parte de Joe Biden, da natureza do desafio chinês à hegemonia americana, como sendo “a disputa do século entre a autocracia e a democracia”. Um exame isento, porém, revela que as ameaças à democracia vêm das próprias sociedades democráticas, e não de fora.

O rótulo “comunista” perdeu o sentido original, da busca de uma sociedade igualitária. Essa doutrina fracassou em todos os lugares nos quais foi experimentada, incluindo a própria China, produzindo ditaduras, elites burocráticas, economias disfuncionais, atraso e pobreza. A partir da morte de Mao Tsé-tung, em 1976, seu sucessor, Deng Xiaoping, livrou a China dessa armadilha, integrando sua economia ao restante do mundo, e criando o capitalismo de Estado.

Partindo de uma base extremamente pobre, a China tem conseguido desde então gerar nos seus cidadãos o sentimento de que cada geração vive melhor do que a anterior. O ganho no campo econômico não tem como contrapartida uma perda palpável no campo político, porque os chineses nunca gozaram de liberdades democráticas, nem essa é uma exigência cultural. Ao contrário: as raízes confucionistas da cultura chinesa priorizam a hierarquia e a disciplina sobre a liberdade.

Durante a Guerra Fria, União Soviética e Estados Unidos disputavam influência sobre o mundo, que se consumava muito mais num alinhamento geopolítico do que na adoção rigorosa do modelo econômico e político de um ou de outro. 

Tanto que, embora a principal justificativa para o golpe militar no Brasil tenha sido não sucumbir ao domínio soviético, este país se afastou ainda mais da democracia e da economia de mercado que caracterizam os Estados Unidos. Os rótulos “comunista” e “capitalista”, “esquerda” e “direita” sempre esconderam realidades muito diversas. 

No momento em que vivemos, a China não está empenhada em exportar seu modelo, até porque o rótulo “comunista”, no caso dela, é ainda mais vazio do que quando usado pelos soviéticos. O regime chinês está consumando o controle político sobre Hong Kong e pretende fazer o mesmo com Taiwan. Ambos são considerados pelos chineses como parte integrante de sua nação.

Fora isso, não há um interesse, visível no tempo, de interferir militarmente em outros países, como fizeram a extinta União Soviética, a própria China e os Estados Unidos durante a Guerra Fria, levando às guerras da Coreia e do Vietnã, a muitos outros conflitos diretos ou “por procuração” na Ásia, África, Europa e América Central. 

Por meio da Nova Rota da Seda (Belt & Road) e outros programas de investimentos, a China vem elaborando um novo modelo de colonização, com base não na força militar, mas na dependência econômica. A infraestrutura que os chineses estão construindo na Ásia e na África os torna credores de dívidas, muitas vezes impagáveis, cuja garantia são as próprias obras. Sem o comércio com a China, países produtores de commodities, como o Brasil, estariam arruinados. Sem os produtos e componentes industriais importados da China, o capitalismo entraria em colapso.

O sucesso da China, seja no campo econômico, tecnológico, militar ou epidemiológico – o país estancou abruptamente o surto de coronavírus, mesmo tendo surgido lá – pode inspirar algumas correntes do pensamento iliberal nas sociedades democráticas. É nesse sentido que Biden aponta a necessidade de demonstrar que regimes democráticos são capazes de entregar prosperidade a suas populações.

Mas a dúvida existe não porque os EUA tenham deixado de ser o maior centro dinâmico da inovação e do empreendedorismo do mundo. Eles continuam sendo, e isso é inseparável do ambiente de liberdade econômica, política e cultural usufruído pelos americanos. 

A dúvida acerca dos valores democráticos foi plantada por correntes iliberais, que manipulam, no Ocidente, um sentimento inverso ao que existe na China: o de que grandes fatias da classe média vivem pior do que seus pais. 

Esse ressentimento dá origem a um niilismo, que se traduz na negação de todas as conquistas – da vigilância epidemiológica ao voto eletrônico, passando pelos direitos das minorias – que tenham ocorrido simultaneamente a essa perda de privilégio, e que portanto possam ser, ainda que de forma ilógica, associadas a ela.

Assim, o desafio que os valores democráticos enfrentam é maior e mais próximo do que a ascensão da China. O vírus do niilismo (e do negacionismo) não veio de lá. É uma criação e transmissão locais.

* É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

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