Democracia e desastres

O mundo ainda exalta o resgate dos mineiros chilenos, com toda razão. Da perfuração do tubo de escape ao desenho da engenhosa cápsula Fénix 2, usada na fuga, passando pelos minuciosos cuidados psicológicos reservados às 33 almas nas trevas, a operação de salvamento transcorreu com engrenagem de relógio suíço. Tudo com propriedade e profissionalismo máximo das autoridades chilenas. "O milagre de San José", alardeavam as manchetes.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

Não foi. O resgate dos mineiros foi obra de mortais, conduzida com destreza por técnicos tarimbados, gerentes hábeis e uma cultura de solidariedade formada ao longo de décadas de calamidades e crises históricas. Enfim, coisa dos chilenos.

Lembrado por sua sangrenta ditadura e uma economia regida pela cartilha liberal à Milton Friedman, o Chile hoje desponta muito mais como o modelo de eficiência administrativa e solidez democrática. No entanto, o que isso tem a ver com o drama dos mineiros da mina San José? Tudo.

Catástrofes não têm bandeira, mas a forma como uma sociedade lida com os flagelos, sejam eles naturais ou fabricados, tem muito a ver com a qualidade de sua governança e de suas instituições. "Os governos democráticos, eficientes e idôneos, não são isentos de desastres, mas lidam melhor com eles", dizem Alastair Smith e Alejandro Quiroz Flores em recente artigo para a revista Foreign Affairs.

Chile, Estados Unidos e Japão absorvem bem melhor seus desastres do que, por exemplo, China, Irã, Afeganistão e Paquistão. O que pesa não é apenas a riqueza do país. Enquanto em 1970, um terremoto de 7,9 de magnitude arrasou o Peru, matando 66 mil pessoas, outro ainda mais forte provocou apenas 150 mortes, em 2001. Nas duas datas, a renda per capita peruana, corrigido pela inflação, era quase idêntica. A diferença: o Peru de 1970 foi governado por um regime militar e, em 2001, já era uma democracia - falha, mas funcional.

Segundo os autores do artigo da Foreign Affairs, a explicação é tão simples quanto eloquente. Diferentemente dos autocratas, os lideres de nações democráticas são muito mais sensíveis às demandas de seu povo. Embora todos os governos sofram depois de uma catástrofe nacional, 91% das democracias trocaram seus líderes após terremotos entre 1976 e 2007. Entre autocracias, a renovação após um desastre é de apenas 24%. Já que os déspotas "sobrevivem" melhor às calamidades, suas populações tendem a ser as mais castigadas.

Claro, democracia não é blindagem. A Índia democrática perdeu 20 mil pessoas no terremoto de 2001, mas se saiu muito melhor do que seu vizinho Paquistão em 2005, um país tocado por senhores de guerra e por uma "mulacracia", cuja inépcia deixou 80 mil mortos após um terremoto bem menos intenso.

Nesse quesito, o Chile é exemplar. Atravessada por uma cordilheira traiçoeira e pousada em solos instáveis, a nação foi sacudida por três terremotos graúdos no último meio século (o de 1960, foi o pior já registrado), levando os chilenos a reinventar a sua engenharia e as regras de construção civil. O resultado é nítido. No ano passado, o Haiti foi sacudido por um terremoto de 7 na escala Richter, que varreu 220 mil vidas e deixou o país agonizando. Em fevereiro, o Chile sofreu um terremoto de 8,8 (cinco vezes mais potente), seguido por um tsunami, que matou apenas 500 pessoas, e a nação já está de pé.

Misturar catástrofe com a política produz um coquetel perigoso. Um resgate espetacular após um desastre pode criar um herói instantâneo, com projeção global. No entanto, uma tragédia, uma operação atrapalhada ou mesmo o comportamento duvidoso de um líder diante dos holofotes pode aleijar um governo ou enterrar uma carreira política.

A hesitação e a reação confusa do governo federal dos Estados Unidos frente ao furacão Katrina, em 2005, custaram caro ao governo de George W. Bush - que já estava combalido - e ajudaram a tirar dos republicanos o monopólio do congresso nas eleições de 2006 e 2008.

O ultrapopular ex-presidente tailandês Thaksin Shinawatra é sempre lembrado pelo socorro hábil que prestou à população devastada pelo tsunami de 2004, mas também por proibir a imprensa de noticiar o surto da gripe asiática no ano anterior.

O mesmo terremoto que arrasou o Haiti também fez surgir dezenas de pretendentes políticos, inclusive 19 candidatos a presidente (entre eles o ídolo do hip-hop Wyclef Jean), talvez de olho no orçamento de bilhões de dólares de assistência humanitária. Enquanto desfilam as vaidades, dezenas de milhares de sobreviventes do desastre ainda esperam ajuda.

Não se sabe os motivos que levaram o presidente chileno, Sebastián Piñera, a colocar o capacete e assumir o comando, mesmo que simbólico, dos trabalhos de resgate. Os seus desafetos o acusaram de ser "oportunista" e "midiático" ao tentar se apropriar do palco internacional para alçar a sua popularidade em queda, como se fosse o 34.º mineiro soterrado.

Para os seus eleitores, foi a prova definitiva de que colocaram a pessoa certa no Palácio de la Moneda, um gerente dedicado, sem medo de assumir os riscos de um possível de desgaste e arregaçar as mangas pela pátria. Os riscos não foram poucos, ainda mais no inóspito Atacama.

"O deserto está povoado de cruzes", lembrou o escritor chileno Hernán Rivera Letelier. Poderiam ter sido mais 33. Apesar da sua experiência com mineração, que responde por 40% da riqueza do país, o Chile ainda amarga uma média de 35 mortes por ano em acidentes de minas. Melhor que a China, que registrou 2,631 mineiros mortos em 2009, mas o suficiente para provocar uma enxurrada de protestos e processos, que não devem morrer com o resgate.

Por sorte, destino ou talvez "um afago de Deus", nas palavras da presidente argentina, Cristina Kirchner, mas muito mais por competência e habilidade de uma das democracias mais sólidas da América Latina, o mundo louva o desfecho do acidente da mina San José. Aposta acertada de Piñera, que já viu sua modesta aprovação subir. O Chile poderia se tornar agora o país dos reaparecidos.

É CORRESPONDENTE DA REVISTA "NEWSWEEK" E COLUNISTA DO "ESTADO"

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