Democracia em etapas

Cairo precisa agora de um governo responsável e funcional

Charles A. Kupchan *, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2013 | 02h06

Embora Washington deva condenar a violência dos militares egípcios, exigir um rápido retorno à democracia é um equívoco. Apressar Estados em fase de transição a convocarem eleições mais prejudica do que beneficia, produzindo regimes não liberais disfuncionais. O presidente deposto do Egito, Mohamed Morsi, pode ter sido legitimamente eleito, mas seu governo levou o país a um quase colapso e ele tratou a pontapés seus oponentes.

Washington deveria pressionar os atuais líderes a respeitar uma governança responsável, pôr fim à violência e à repressão, restaurar as funções básicas do Estado, promover a recuperação econômica, refrear os extremistas e manter a paz com Israel.

Washington deveria desistir de promover com tanto ardor a democracia no Egito e no Oriente Médio por três razões. Em primeiro lugar, mesmo que democracias liberais signifiquem uma boa governança interna e externa, as transições rápidas para um Estado democrático, historicamente, tiveram efeito contrário: desordem interna e instabilidade além das fronteiras dos países.

Em nações sem experiência no tocante às limitações impostas por uma Constituição e à responsabilidade democrática, os vitoriosos nas urnas, normalmente, adotam estratégias em que dominam tudo. Calam a oposição, governam como acham conveniente e inquietam os vizinhos. Num caso após o outro - Bósnia, Rússia, Ucrânia, Iraque, Egito - os governos democráticos nascentes demonizaram os oponentes e governaram com mãos de ferro.

Mudanças gradativas produzem resultados mais duráveis. Limitações constitucionais, reforma do Judiciário, partidos políticos, privatização econômica - são as pedras angulares das sociedades democráticas que precisam de tempo para criar raízes.

A Grã-Bretanha tornou-se uma monarquia constitucional depois da Revolução Gloriosa, de 1688, mas só se tornou uma democracia liberal madura no século 20. Além disso, as transições para a democracia no Oriente Médio serão mais perigosas por fatores peculiares à região: o poder do islamismo político e a natureza arraigada da fidelidade sectária e tribal.

Islamismo e democracia não são incompatíveis. Contudo, religião e política estão intimamente entrelaçados em todo o Oriente Médio. A tradição islâmica não faz nenhuma distinção entre mesquita e Estado, o que tem ajudado islamistas a vencerem eleições em toda a região. Como resultado, observamos a luta aniquiladora entre islamistas, no poder, e secularistas no Egito, na Turquia, na Tunísia e em quase todo o Oriente Médio.

Na falta da tradição ocidental de separar o sagrado do secular - o que ocorreu somente após as sangrentas guerras da Reforma Protestante - batalhas sem trégua sobre o papel do Islã na política atormentarão potenciais democracias do Oriente Médio por gerações.

O sentido de pertencer a uma nação é irmão gêmeo da democracia. O nacionalismo é o adesivo social que faz com que a política de consenso funcione. O Egito, como a Turquia e o Irã, tem sorte de ter uma identidade nacional sólida que remonta a séculos. A coesão social será ainda mais difícil em outros Estados da região - como Iraque, Síria e Líbano - nações criadas artificialmente pelas potências coloniais. Eles correm o risco de uma fragmentação por divisões tribais, étnicas e sectárias.

Finalmente, a promoção da democracia por Washington compromete a sua credibilidade porque, com frequência, não se coaduna com suas próprias políticas. Seus aliados mais próximos no mundo árabe, os reinos dos xeques do Golfo Pérsico, são os Estados menos democráticos do Oriente Médio.

*Charles A. Kupchan é professor da Universidade Georgetown.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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