Democracia resiste à pressão chinesa no Estreito de Taiwan

Tsai Ingwen luta contra candidata favorável à China

Julian Baum, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2011 | 00h00

THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR

Com o início de sua viagem aos EUA, esta semana, a candidata à presidência de Taiwan, Tsai Ing-wen, está mostrando a Washington e a seus numerosos partidários nas comunidade taiwanesa-americana de todo o país que o partido da oposição contrário à unificação está de volta.

Talvez essa seja uma surpresa para os que lembram da votação decisiva com a qual o atual presidente de Taiwan, Ma Ying-jeou, ganhou as eleições em 2008, e quão entusiasticamente sua vitória foi recebida em Washington. Mas as pesquisas de opinião mostram que Tsai, a primeira mulher a candidatar-se à presidência, está quase empatada com o presidente Ma, que concorre a um segundo mandato com uma política favorável à China como seu principal elemento de campanha. A firme liderança de Tsai na oposição da ilha nos últimos três anos e sua competência em política pública reavivaram as perspectivas políticas do seu partido mais cedo do que se previa.

As implicações desse fato são tranquilizadoras. Principalmente porque é uma notícia encorajadora o fato de a democracia mais assediada do Leste Asiático não ter sido esmagada pela regressão antidemocrática internamente ou pela intimidação da China.

Em um sentido mais prático, essa é uma oportunidade para os estrategistas de Taipé e de todo o Pacífico refletirem sobre suas premissas de que os arranjos dúbios, do ponto de vista político, de Pequim são necessariamente a melhor maneira de administrar relações estáveis e mutuamente benéficas no longo prazo.

Tsai e seu grupo de aspirantes a cargos públicos estão na linha de frente desse debate. Depois de quatro anos de amplos arranjos com Pequim sob a presidência de Ma, os benefícios recebidos foram profundamente decepcionantes. Sim, o clima entre Taiwan e a China melhorou e o número de visitantes oficiais cresceu enormemente, abrindo mais espaço para uma maior compreensão mútua. Mas concretamente, pouco mudou. Apesar do modesto incremento da receita com o turismo chinês, os benefícios líquidos para a economia de Taiwan foram mínimos e constituirão até mesmo uma derrota a prazo mais longo.

No mundo da diplomacia, pouco foi conseguido para o aumento da participação internacional além de um estado intensamente disputado de observador em uma obscura agência ligada à ONU. O crescimento da movimentação de tropas no Estreito de Taiwan continua sem parar. Em geral, Pequim tem se mostrado obstinada, exigindo um comportamento mais cooperativo de Taipé em comparação com o que está disposta a conceder em troca. Além disso, os riscos implícitos representados pela aceitação da estratégia declarada de Pequim de uma integração econômica como primeiro passo para a eventual anexação, parece cada vez menos aceitável para o público taiwanês, que julga o governo chinês com maior rigor do que nunca, segundo recentes pesquisas de opinião. O próprio Ma admitiu os riscos envolvidos, e reduziu o ritmo das iniciativas do seu lado do estreito no ano passado ao se dar conta de que as expectativas eram demasiado elevadas e que suas políticas eram excessivamente elogiadas.

Ao mesmo tempo, conforme Tsai proclamava em um discurso ao American Enterprise Institute em Washington, esta semana, o retorno ao poder do seu Partido Progressista Democrático (DPP) é inevitável, ou quase. Na ausência de um terceiro partido confiável, o ressurgimento do DPP como alternativa admissível é uma resposta natural à decepção popular com a atual liderança e o desempenho apagado do governo liderado pelo Partido Nacionalista Chinês, de Ma.

Resta ver se Tsai e seu partido poderão recuperar a presidência e/ou conseguir a maioria na legislatura em 2012 ou numa data posterior. O poder do titular em Taiwan é amplificado por uma mídia influenciada pelo governo e pela ampla vantagem dos Nacionalistas no que se refere aos recursos para a campanha. Mas os eleitores taiwaneses podem menosprezar esses fatores quanto qualquer outro eleitorado informado, principalmente as do outro lado do estreito. Enquanto as eleições de Taiwan giram em geral em torno de problemas internos da ilha, como em outras democracias, é a política de Tsai em relação à China é o que mais preocupa quem está de fora. A esse respeito, ela e seu partido se tornaram mais flexíveis à medida que as eleições se aproximam. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É JORNALISTAC

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