Democracia russa faz 20 anos à sombra de Putin

Duas décadas após a eleição do primeiro presidente do país, premiê completa 12 anos de governo e ainda pode ganhar mais 8

Talita Eredia e Renata Miranda, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2011 | 00h00

Há exatos 20 anos, Boris Yeltsin era eleito o primeiro presidente da história da Rússia, dando início à construção da democracia no país. Duas décadas depois, afirmam analistas, o modelo democrático russo encontra-se em crise, com falta de pluralidade política, uma oposição marginalizada e o poder centralizado, há 12 anos, na mão de um único homem: o ex-presidente e atual primeiro-ministro, Vladimir Putin.

Com a proximidade das eleições presidenciais do ano que vem, Putin - herdeiro político de Yeltsin e considerado uma espécie de czar no Kremlin - tem a chance de liderar o país por mais oito anos se seu pupilo, o presidente Dmitri Medvedev, abrir mão da reeleição.

O atual presidente foi retirado da obscuridade há três anos por Putin, que, após cumprir dois mandatos, não poderia concorrer uma terceira vez. Medvedev tornou-se presidente, Putin virou premiê, garantindo sua presença no Kremlin até 2012, quando então estará liberado para concorrer novamente à presidência.

O problema agora é que Medvedev tem mostrado sinais de rebeldia em relação ao mentor e já declarou publicamente que, assim como Putin, também gostaria de concorrer a mais um mandato.

A ruptura entre os dois aliados ocorreu em 21 de março em uma discussão sobre o conflito na Líbia. Putin criticou a ONU, que autorizou os ataques a Muamar Kadafi. O premiê disse que a decisão da organização o fizera lembrar as "Cruzadas medievais contra a Palestina árabe".

Na ocasião, pela primeira vez, Medvedev contradisse o "mestre". "É intolerável e inaceitável comparar as medidas tomadas pela ONU na Líbia com as Cruzadas", afirmou o presidente.

A suposta batalha pelo poder chamou a atenção da comunidade internacional, que especula se as declarações de Medvedev são genuínas ou se fazem parte de um teatro orquestrado pelo premiê para dar legitimidade ao processo democrático no país.

"Isso é exatamente o que Putin precisa enquanto se prepara para as eleições de março de 2012, deixar o mundo pensar que há uma competição real em Moscou e fazer todos acreditarem que Medvedev realmente tem alguma chance", afirmou Lilia Shevtsova, diretora de estudos russos do Carnegie Endowment for International Peace, em Moscou. "Putin não tem a menor intenção de deixar o poder, até porque ele não tem para onde ir."

Herança. Foi Yeltsin que manteve a herança soviética do paternalismo e do culto à personalidade no país. Foi ele também que conseguiu evitar a fragmentação da Rússia após o fim da União Soviética, aboliu o papel do Partido Comunista no governo e montou um gabinete repleto de jovens tecnocratas.

"A vitória de Yeltsin foi a vitória de um indivíduo carismático, não de um partido político. E isso é significante até nos dias de hoje, porque, 20 anos depois, a política russa ainda funciona assim", explicou o cientista político David Woodruff, especialista em Rússia da London School of Economics.

Entre crises econômicas, calotes financeiros e idas e vindas de primeiros-ministros, apareceu a figura de Putin, para quem Yeltsin entregou o governo. Putin herdou um país com 32% da população abaixo da linha da pobreza, com 14 milhões de desempregados e um consumo per capita comparado ao do Congo.

Como presidente, burocratizou o regime e foi o grande responsável pela centralização dos poderes. Redesenhou a organização política das regiões - coincidentemente idênticas aos sete distritos militares russos - e os governadores passaram a ser indicados pelo Kremlin.

Putin verticalizou o poder, controlando as Forças Armadas, apoiou a criação de novas leis federais, por meio de barganhas, ampliou as ferramentas do Estado de monitoramento e supervisão.

"A Rússia, certamente, não é uma democracia", disse Lilia. "Putin consolidou o sistema que emergiu durante o governo Yeltsin, fortalecendo as medidas autoritárias e colocando as oligarquias no controle. Ele também editou a Constituição, que é a base de seu "regime hiperpresidencialista", com o líder acima do sistema e da sociedade."

O premiê, no entanto, não aceita as críticas. Em entrevista, Putin afirmou ser o único "democrata puro" no mundo. "Sou um democrata absoluto", disse. "Mas sabe qual é o problema? Na verdade, não é nem um problema, é uma tragédia: eu sou o único, não há outros democratas no mundo."

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