'Democracias do Islã' enfrentam velhos dilemas da política

Análise: Jocelyne Cesari / W. Post

É PESQUISADORA SÊNIOR DO PROGRAMA , ISLAM IN THE WEST, DO CENTRO BERKLEY , DA UNIVERSIDADE HARVARD, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2013 | 02h10

A vitória de partidos islâmicos em 2012 após as revoluções no Egito e na Tunísia reacendeu a dúvida "inesgotável" sobre o papel do Islã em possíveis transições para a democracia. Essa questão foi moldada ao longo de décadas pela Revolução Islâmica, no Irã, que resultou num regime autoritário governado por clérigos, para não falar do medo de eleições levarem ao caos civil como na Argélia em 1992.

A dúvida parte do pressuposto de que os islâmicos não estão trabalhando para estabelecer a democracia, mas usando as eleições para criar teocracias. Essa interpretação "tudo ou nada" não reflete a firme marcha de movimentos islâmicos para a democracia ao longo das três últimas décadas. Entretanto, isso não significa que as transições em curso levarão necessariamente a democracias liberais no estilo ocidental. O mais provável é que estejamos testemunhando a ascensão de democracias "iliberais", nas quais o respeito aos resultados eleitorais não significa automaticamente o fim da discriminação com base em gênero ou religião entre cidadãos.

O colapso de regimes autoritários revelou que a democracia é, hoje, o tipo de regime mais legítimo - ou, em outras palavras, o único jogo possível. Isso não surpreendeu antigos observadores do Oriente Médio e da política muçulmana. Afinal, Indonésia e Senegal, dois países de maioria islâmica, qualificam-se como democracias de acordo com os critérios estabelecidos pela Freedom House. Da mesma forma, a evolução política do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), na Turquia, desde os anos 80, demonstra a adoção, não só de eleições livres, mas também das instituições seculares do Estado kemalista. O Ennahda, na Tunísia, e o Partido da Liberdade e Justiça (FJP), no Egito, mostram o mesmo pragmatismo no que se refere à aceitação de instituições estatais pré-existentes. O verdadeiro teste de força de suas democracias será a persistência do sistema eleitoral - se os partidos políticos predominantes serão alijados por eleição livre. Mas há indícios suficientes de que a maioria de seus eleitores é fortemente favorável à democracia, algo que os líderes políticos terão de levar em conta.

Alguns poderiam dizer que o papel central da religião nas "democracias muçulmanas emergentes" torna necessário um avanço rumo a uma maior secularização. Os EUA, por exemplo, definiram-se inicialmente como uma democracia cristã, na qual processos por blasfêmia eram correntes até a segunda onda de secularização, no século 19, garantir a liberdade de expressão para todos os indivíduos. Outros poderiam afirmar que a combinação de religião e instituições nacionais não é uma fase, mas um novo tipo de democracia - resultado da inclusão de nações muçulmanas e outras não ocidentais no sistema internacional. Somente o futuro dirá. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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