Democracias insatisfeitas

Embora tenham feito progressos sociais, países latino-americanos tornaram-se centros de agitação popular

O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2013 | 02h04

Em 2011 e 2012, dezenas de milhares de estudantes se manifestaram em Santiago, no Chile, pedindo mais acesso à educação superior. No começo deste ano, centenas de milhares de brasileiros marcharam em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte pedindo melhora dos serviços de saúde pública, melhores escolas e transporte mais barato e eficiente.

Colombianos e peruanos de todos os segmentos da sociedade (em especial camponeses, fazendeiros e mineiros), além de professores mexicanos, agora ocupam os centros de Bogotá, Lima e Cidade do México perturbando as atividades diárias dos habitantes e criando sérios problemas para as autoridades.

Esses países, que já foram modelos de esperança econômica e promessa democrática na América Latina, tornaram-se exemplos de democracias sem legitimidade ou credibilidade. Embora tenham feito progressos sociais significativos, nos últimos anos, eles se tornaram centros de agitação popular. Seus presidentes, a despeito de sua inegável competência, estão vendo despencar seus índices de aprovação.

Esses paradoxos são, a um só tempo, intrigantes e reveladores. Para começar, eles refletem um problema de crescimento econômico. A economia do Chile teve bom desempenho nos dois últimos anos, apesar dos baixos preços internacionais do cobre, mas sua taxa de crescimento anual está muito aquém do que esteve nos últimos 25 anos. O bálsamo econômico aplicado a velhas feridas sociais e culturais está perdendo sua eficácia.

Da mesma maneira, enquanto a economia brasileira permaneceu relativamente resistente após a recessão de 2009, o crescimento desacelerou para quase zero no ano passado. As taxas de crescimento na Colômbia, e mesmo no Peru, que se saiu melhor do que qualquer outro país latino-americano desde 2000, também caíram significativamente. E o México, que teve o pior desempenho das cinco democracias nos últimos 15 anos, superou as expectativas. Este ano, o crescimento deve alcançar apenas 1%, se tanto.

Ao mesmo tempo, apesar de todos esses países terem construído instituições políticas e jurídicas para consolidar suas transições à democracia - do Brasil, em meados dos anos 80, ao México, em 2000 -, essas instituições ficaram (e, em alguns casos, sempre estiveram) notavelmente isoladas das demandas populares. Por isso, os protestos pegaram de surpresa os presidentes aparentemente receptivos desses países.

Aliás, Juan Manuel Santos, da Colômbia, e Dilma Rousseff, do Brasil - ambos políticos habilidosos e experientes -, estavam absolutamente despreparados para os protestos em seus países. Da mesma maneira, Enrique Peña Nieto, do México, e Ollanta Humala, do Peru, que pareciam líderes até então perspicazes, não conseguiram perceber a tempestade que se formava.

Como observou o economista e político chileno Carlos Ominami: "Os filhos da democracia tornaram-se os principais agentes da mudança; o movimento social que eles representam não tem liderança política e as forças políticas do país romperam todas as suas conexões com o mundo social".

Este ano, o Chile vai realizar a sexta eleição democrática consecutiva, com duas mulheres - a ex-ministra do Trabalho Evelyn Matthei e a ex-presidente de centro-esquerda Michelle Bachelet (ambas filhas de oficiais militares de alta patente) lideram atualmente as pesquisas. Quem vencer, seja lá quem for, terá de optar entre transformar profundamente as instituições chilenas ou deixar a agitação social fugir de controle.

O Brasil enfrenta um julgamento similar, à medida que a Copa do Mundo do próximo ano e a Olimpíada de 2016 testarão a resistência e adaptabilidade das estruturas sociais e macroeconômicas que moldaram o desenvolvimento do país por quase duas décadas.

Certamente, programas proativos antipobreza, crédito fácil, um boom na exportação de commodities e pesados gastos governamentais (financiados por uma carga fiscal igualmente pesada) tiraram milhões da pobreza. No entanto, as expectativas da classe média emergente - incluindo infraestrutura eficiente, educação e serviços de saúde de alta qualidade e empregos bem remunerados - não foram atendidas. Se não puder nem sequer entrar nos estádios novos e luxuosos para ver sua seleção jogar, ela não ficará satisfeita.

Da mesma maneira, embora o México tenha experimentado um rápido crescimento populacional e uma melhora significativa nos níveis de vida nos últimos 15 anos, muitos mexicanos acreditam que não estão recebendo o que merecem - ou o que lhes foi prometido. Os professores estão furiosos por serem responsabilizados pelo estado lamentável do sistema educacional do país e veem a lei de "reforma educacional" de Peña Nieto como um pretexto para limitar o poder de seus sindicatos enquanto evita uma genuína reforma institucional.

Os moradores de classe média da Cidade do México - que exercem uma influência desproporcional em todo o país - também estão irritados, tanto com os professores, por perturbarem suas vidas, como com as autoridades federais e locais, por não conseguirem restaurar a ordem. Contra esse pano de fundo, a credibilidade das instituições políticas mexicanas está sofrendo uma acelerada erosão.

Há uma questão mais fundamental em jogo, que deriva das imperfeições acumuladas da democracia representativa em países onde as condições sociais e econômicas estão abaixo do ideal. Quando a excitação pós-autoritária era grande e o rápido crescimento econômico prevalecia, essas imperfeições eram manejáveis. Agora, com a primeira sumindo e a última sendo uma lembrança, elas se tornaram desafios imensos.

O problema transcende a América Latina. Como assinalaram observadores como Joshua Kurlantzick, está em curso um afastamento global do governo representativo, impulsionado por classes médias cada vez mais desiludidas. Para os dirigentes eleitos, o dilema é que não há soluções simples - e pouca paciência pública para os mais complexos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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