Alex Silva/ Estadão
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Democracias precisam se adaptar a insatisfações pós-globalização

Conferência em SP debate risco de agendas demagogas e autoritárias no mundo atual

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2016 | 05h00

Um sentimento de insatisfação está forçando uma mudança nas democracias ocidentais, que precisam se adaptar a um período de insatisfação pós-globalização. Na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa, muitos dilemas são compartilhados, com as nuances de cada região, mas precisam ser resolvidos para que não deixem espaço que possam ser ocupados por políticos ou agendas demagogas ou autoritárias. 

Esse debate foi conduzido ontem na conferência Turbulent Democracies and the International System: Perspectives from Europe, Latin América and United States, promovido pela Fundação Fernando Henrique Cardoso em parceria com o German Marshall Fund of United States. Nela, experientes analistas, observadores e especialistas compararam as experiências nas três regiões e concluíram que o momento exige respostas. 

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Para o sociólogo Juan Gabriel Tokatlian, houve uma sobrecarga sobre essas democracias de expectativas e demandas, e elas testemunham agora contradições e dilemas que as colocam sobre o desafio de se reformular. O pofessor da Universidad Di Tella (Buenos Aires) afirma que a ameaça terrorista na Europa, especificamente na França, por exemplo, impôs o dilema das "ações extrajudiciais", colocando o ideal de democracia em risco. Algumas exceções adotadas em nome do combate ao terror passam a vigorar permanentemente. 

Especialista do Atlantic Council e ex-analista de inteligência da CIA, Matthew Burrows menciona o que acontece, por exemplo, nos EUA onde a população tem muita raiva do acontece. Para ele, a grande questão é não apenas com relação ao modelo de democracia, mas ao conhecimento que os países têm entre si, sobre o que ocorre neles. "Será que estamos caminhando para uma bipolaridade novamente com potencial de conflito?", questiona, se referindo a períodos de guerra no passado. 

Segundo a pesquisadora do Hoover Institutuion Kori Schake, os Estados Unidos, por exemplo, estão vivencido uma eleição que é uma loucura, ainda que isso não seja uma prerrogativa só dos americanos. Mas o momento no país demonstra que as pessoas estão dando seu recado e dizendo que estão perdendo a fé nos líderes. "Temos de entender que parte dos eleitores de (Donald) Trump têm educação sim, mas estão vendo que a vida confortável que costumavam ter está desaparecendo e não estará lá para seus filhos", disse, em sua apresentação, a analista, que trabalhou como consultora da chapa republicana McCain-Palin, em 2008. 

Um dos convidados da conferência, o vice-chanceler da União Europeia, Christian Leffler, disse ver um lado positivo nessa turbulência. Nas três regiões há, em comum, um sentimento entre as pessoas de que elas não estão sendo ouvidas, de que estão excluídas. Em entrevista ao Estado, Leffler afirma que, no entanto, a inquietude é uma prerrogativa dos sistemas democráticos. "Democraia é uma bagunça, não é linha reta. Envolve surpresas em eleições, debates acalourados, confrontação política, manifestação popular. Nem sempre temos a certeza para onde ela vai", disse. 

Porém, na sua opinião, é exatamente em razão dessa dinâmica e desse intenso diálogo, que ela encontra caminhos para seguir em frente, com mais capacidade de se adaptar e com mais responsabilidade de entregar aquilo de que as pessoas precisam. "Com todas as suas fraquezas, acreditamos que essa é a mehor maneira de seguir em frente", disse. 

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