Democrata inicia trabalho de Hércules

O presidente americano, Barack Obama, pretendia "estender a mão" ao Irã. Mas como fazê-lo? Ele aproveitou o Nowruz, o ano-novo iraniano, para fazer seus votos. E os ofereceu não somente ao presidente Mahmud Ahmadinejad, mas também ao povo. Obama falou para todos os iranianos - e não para um de seus líderes. Bem jogado! Ao contrário do ex-presidente George W. Bush, que recriminava os iranianos, Obama lhes disse que, com sua cultura, eles "tornaram o mundo um lugar mais belo e melhor". E citou o poeta persa da Idade Média Sadi: "Os filhos de Adão são membros de um mesmo corpo, criados de uma mesma essência." Outra boa estratégia.Mas o trabalho que Obama empreende é um trabalho de Hércules. Ele precisa tranquilizar o Irã sem inquietar os americanos. Após 30 anos de retórica anti-iraniana, os americanos estão convencidos de que o Irã é um país habitado exclusivamente por demônios. O próprio gabinete de Obama está febril, assombrado pelo perigo que o Irã representa, e, sobretudo, por sua possível bomba nuclear. Na semana passada, Mike Mullen, chefe do Estado-Maior americano, garantiu que o Irã possui os materiais necessário para produzir a arma nuclear. O chefe do Pentágono, Robert Gates, acaba de dizer a mesma coisa a seu colega francês, Hervé Morin. E não são somente os americanos. Na recente conferência em Sharm-el-Sheikh, no Egito, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, deparou-se com suspeitas de vários chefes árabes - em particular, dos Emirados Árabes Unidos. Ela precisou tranquilizá-los: "Estamos de olhos abertos", disse. Os mais aflitos são os israelenses. O presidente Mahmud Ahmadinejad passa o tempo todo ameaçando varrê-los do mapa. Teerã subvenciona e arma milícias do Oriente Médio inimigas de Israel, como Hamas, Hezbollah. Portanto, a perspectiva de uma bomba nuclear iraniana é um pesadelo para Tel-Aviv. Um documento oficial, enviado a Hillary Clinton, afirma que Israel jamais aceitará um Irã nuclear, o que significa que, nessa hipótese, Israel empregaria a força. E o Irã? Como os iranianos receberão a abertura de Obama? A primeira reação foi favorável, mas circunspecta. Mas é preciso diferenciar a rua dos dirigentes. A rua está cansada das promessas delirantes que Teerã multiplica desde a Revolução Islâmica de Khomeini, prolongadas por Ahmadinejad. Ela quer descansar, aproveitar a vida, ser um pouco feliz. Por fim, o "personagem Obama" seduziu os iranianos, como seduziu o mundo inteiro. Sua oferta de paz deverá tocar a população. Mas é preciso saber que a bomba nuclear é desejada pela grande maioria dos iranianos. O Paquistão tem a bomba, a Índia tem a bomba, a Coreia do Norte tem a bomba, Israel tem a bomba. Por que o Irã não teria o direito de possuí-la? É graças a essa bomba que o presidente Ahmadinejad conserva alguma popularidade. Ele tem consciência disso e, por isso, ele brande essa bomba hipotética em cada um de seus discursos. ATAQUESDo lado dos dirigentes iranianos, o quadro é mais confuso. Há tantas facções, clãs e rivalidades na chefia do Estado que fica difícil adivinhar qual será a verdadeira reação de Teerã. Mas é preciso levar em conta um elemento importante: o que mantém no lugar os dirigentes iranianos são os ataques que o país sofre de todas as partes. "O pior pesadelo para o regime iraniano", disse lucidamente Hillary, "seria toda a comunidade mundial e os EUA prontos para a abertura". Não é, portanto, um caminho fácil o que Obama abriu ontem. Trata-se de um caminho escarpado, áspero. Washington gostaria ainda de envolver o Irã na solução do problema do Taleban no Afeganistão. Por que não? Os taleban e os afegãos são muçulmanos sunitas. O Irã é povoado sobretudo por xiitas. Teerã vê com maus olhos o desenvolvimento de um ativismo sunita em suas fronteiras. Sondados a esse respeito, os chefes iranianos mostraram-se cooperativos. Isso nos permite completar um pequeno retrato da nova diplomacia americana: ela é globalizante, vasta, sutil, variada, maleável. Ela abriga também uma certa dose de "realpolitik". * Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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