Brendan Smialowski / AFP
Brendan Smialowski / AFP

Democratas ameaçam não enviar impeachment de Trump ao Senado

Manobra da oposição poderia deixar presidente no limbo político, sem absolvição dos senadores, até a eleição de 2020; governistas garantem que aliados fariam julgamento de qualquer maneira e isentariam o republicano, que disputa a reeleição

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2019 | 06h39

WASHINGTON - Donald Trump tornou-se o terceiro presidente na história dos EUA a sofrer um impeachment e o primeiro a disputar a reeleição após ser condenado pelos deputados. O drama, porém, não terminou na noite de quarta-feira. Na quinta, 19, a presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, ameaçou não enviar o processo para o Senado - o que deixaria o presidente carregar o peso da condenação até as eleições de 2020.

Os republicanos têm maioria no Senado e o senador Mitch McConnell, líder da bancada do partido, já disse que pretende montar um julgamento que favoreça o presidente. Por isso, Pelosi ameaçou, logo após a aprovação do impeachment, reter o processo até que fique claro que o julgamento de Trump será “justo”. “Tomaremos nossa decisão sobre quando iremos enviá-las quando virmos o que eles estão fazendo no Senado”, disse a líder democrata. “Até agora, não vimos nada que pareça justo para nós.”

Constitucionalistas dizem que, em condições normais, as duas acusações deveriam ser enviadas aos senadores imediatamente para serem lidas no plenário. No entanto, não há nada no regimento da Câmara que obrigue Pelosi a entregar formalmente o processo aos senadores.

Na quinta, os jornais Washington Post e New York Times relataram que mais de 30 deputados democratas estariam pressionando Pelosi a segurar as acusações e usar o impeachment como arma para negociar os termos do julgamento no Senado. O objetivo dos democratas é pressionar para que os republicanos convoquem testemunhas que foram impedidas pela Casa Branca de depor na Câmara durante os três meses do inquérito que deu origem às acusações contra Trump.

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No entanto, o atraso pode criar um limbo até o início de janeiro, atrasando o começo do julgamento por um período indeterminado. Em entrevista à CNN, John Dean, ex-conselheiro da Casa Branca no governo de Richard Nixon, sugeriu que Pelosi poderia obrigar o presidente a disputar a reeleição, em novembro, com o incômodo do impeachment assombrando sua campanha.

“As acusações ativam o julgamento no Senado. Mas não há nada na lei que obrigue Pelosi a enviar as acusações”, disse Dean. “Se ela segurar o processo, não haverá absolvição e Trump pode chegar à eleição como um presidente condenado pela Câmara.”

Alguns estrategistas republicanos já reagiram à manobra. Joel Pollack, aliado de Trump e editor do Breitbart News, sugeriu que o Senado pode levar a questão ao plenário e votar pela absolvição do presidente de qualquer maneira. “Os democratas podem boicotar, mas não podem impedir o julgamento”, disse.

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Polarização

Por enquanto, a estratégia republicana tem sido enfatizar a polarização do impeachment. As duas acusações passaram na Câmara com o voto favorável exclusivamente de deputados democratas. O primeiro texto, sobre abuso de poder, foi aprovado por 230 a 197. O placar do segundo, sobre obstrução do Congresso, foi 229 a 198 - todos os republicanos votaram contra, o que foi celebrado por Trump. “O Partido Republicano está mais unido do que nunca”, tuitou o presidente.

Em um comício de campanha em Michigan, Trump voltou a dizer que a aprovação do impeachment foi “um suicídio político” e “uma eterna marca de vergonha” para seus adversários. “O que os deputados democratas querem é anular o voto de milhões de patriotas americanos”, disse o presidente.

Hoje é o último dia de trabalhos dos congressistas, que saem de recesso e voltam a Washington no início de 2020. Se Pelosi não enviar as acusações, o julgamento no Senado sofrerá um atraso. A presidente da Câmara sabe os riscos que corre ao bater de frente com o líder do Senado.

Ainda na quinta, McConnell aumentou a pressão sobre Pelosi e afirmou que segurar as acusações apenas mostra como o caso contra Trump é fraco. “Eles estão se acovardando diante do país todo. Disseram que o impeachment era urgente, aceleraram o processo. Agora, estão sentados, de braços cruzados. É cômico”, disse o senador.

Atraso

O tom agressivo dos republicanos reflete o humor da Casa Branca. De acordo com assessores próximos, Trump aposta tudo em sua absolvição no Senado para limpar sua imagem arranhada pelo processo de impeachment na Câmara. Os republicanos têm uma maioria folgada de 53 senadores - de um total de 100. A destituição só ocorreria com dois terços dos votos - ou seja, pelo menos 20 senadores do partido teriam de abandonar o presidente americano.

Sabendo disso e consciente de que os senadores republicanos dificilmente trairiam Trump, Pelosi estaria disposta a arriscar uma nova estratégia. O único problema é que a janela dos democratas é curta. Desde o início, o partido fez de tudo para acelerar o processo na Câmara para evitar que as discussões se alongassem em 2020 e atrapalhassem a temporada de primárias, que começa em fevereiro.

Pelo menos quatro senadores democratas - Cory Booker, Amy Klobuchar, Bernie Sanders e Elizabeth Warren - disputam as prévias do partido. Se a discussão sobre o impeachment se arrastar no Senado, eles ficariam divididos entre Washington e a campanha por vários Estados americanos. / NYT, W.POST, AP e REUTERS

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