Democratas apresentam-se à sucessão de Bush

Com o ex-vice-presidente Albert Gore fora do páreo, nada menos do que quatro líderes democratas já se apresentaram na linha de largada para a corrida que dará a um deles a difícil missão de tentar desalojar o popular presidente George W. Bush da Casa Branca, em novembro do ano que vem. Esse número pode chegar a dez nas próximas semanas.O ex-líder do partido na Câmara, deputado Richard Gephardt, de Missouri, oficializou sua candidatura hoje. Um político com fortes ligações com os sindicatos, que são uma importante base de mobilização do eleitorado democrata, Gephardt concorreu nas primárias de 1988. Sua decisão de tentar novamente, num ano em que o presidente republicano parece imbatível, é significativa porque parece corrigir um erro de cálculo que Gephardt cometeu em 1991, quando ele e outros presidenciáveis democratas desistiram de disputar a Casa Branca porque não viam chance em desalojar o então presidente George Bush, que parecia politicamente invulnerável depois da vitória na Guerra do Golfo. A decisão facilitou a vida do então governador de Arkansas, Bill Clinton, que no ano seguinte bateu o pai do atual presidente com uma campanha centrada no estado da economia, que não era substancialmente diferente do que é hoje.Considerado o candidato potencialmente mais atraente para o eleitorado, o senador John Edwards, um advogado de 49 anos, da Carolina do Norte, fez fortuna defendendo pessoas prejudicadas por ações de grandes empresas. Na semana passada ele anunciou sua decisão de formar um comitê para explorar suas chances de concorrer à Casa Branca. "Se for o indicado do Partido Democrata em 2004, trabalharei pela causa das pessoas comuns, daqueles que não têm lobistas", afirmou numa entrevista, para diferenciar-se dos demais contendores democratas.Uma das razões pelas quais Edwards é tido com um candidato capaz de empolgar o seu partido e o país é que ele tem o carisma do ex-presidente Bill Clinton, sem sua bagagem de problemas pessoais."Edwards só tem quatro anos no Senado, mas que já o viu em ação sabe que ele possui a mágica de Clinton", diz o colunista conservador David Brooks, do semanário Weekly Standard. Outra é que ele é um político do Sul, a origem dos três últimos presidentes democratas dos Estados Unidos - Lyndon Johnson, Jimmy Carter e Clinton.Os outros pré-candidatos potenciais já na lista são o senador John Kerrey, de Massachusetts, e o governador Howard Dean, de Vermont. Com três mandatos no Senado e um passado de oficial condecorado por bravura no Vietnã e de líder do movimento de protesto contra a guerra, Kerrey tem feito críticas pesadas à estratégia de Bush na guerra ao terrorismo e pode ganhar espaço se a ofensiva contra o Iraque sair pela culatra, ou os EUA forem alvos de um novo ataque pesado. Médico, Dean nada tem a perder e pode emergir como o candidato da autenticidade - uma espécie de John McCain democrata - nas primárias. Gephardt é um veterano do Congresso, um líder experiente e conhecedor da máquina eleitoral democrata, que é a chave do sucesso na disputa preliminar entre os pretendentes do partido. Os três partilham uma importante vantagem inicial sobre Edwards: representam Estados vizinhos de Iowa (Gephardt) e New Hampshire (Kerrey e Dean), onde as eleições primárias começarão, dentro de apenas treze meses.O senador Joe Lieberman, de Connecticut, que foi companheiro de chapa de Gore em 2000, e o reverendo Al Sharpton, um líder negro de Nova York, devem criar comitês eleitorais ainda este mês. Quatro outros senadores, Tom Daschle, de Dakota do Sul, Robert Graham, da Flórida, Christopher Dodd, de Connecticut, e Joe Biden, de Delaware, têm planos para testar as águas e avaliar suas chances de levar adiante uma campanha, o que depende da capacidade do candidato de levantar dezenas de milhões de dólares.Bush disse, na semana passada, que ainda não está pensando na reeleição e que, por ora, considera a pré-campanha de seus possíveis contendores "ruído de fundo". Sua alta taxa de aprovação, que conquistou graças à resposta firme que deu aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, sugere que ele não terá problemas para vencer o pleito do ano que vem. Bush tem a vantagem de poder aprender com os erros que seu pai cometeu na campanha de 1992. Mas vários fatores podem indispor o eleitorado contra o presidente, que chegou ao poder em 2000 sem a maioria do voto popular. A economia americana não vai bem. A radicalização em curso de certas políticas sociais, principalmente agora que os republicanos voltarão a ter o mando do Congresso, já começam a alimentar articulações e manifestações em contrário. E Bush está prestes a iniciar uma nova guerra contra o Iraque, fato que desencadeará uma nova dinâmica e provavelmente não reforçará a segurança do americanos, podendo mesmo produzir o efeito inverso e aumentar as chances de novos atentados terroristas com os EUA. A atual confrontação com a Coréia do Norte, que foi gerada em grande parte pela retórica belicista da Casa Branca, deixou os EUA numa posição complicada e mostrou que Bush é politicamente vulnerável mesmo na área da segurança e defesa, em que em que firmou sua popularidade depois dos atentados de 11 de setembro.

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