Democratas continuam sendo democratas

Partido de Hillary Clinton volta-se para suas bases tradicionais buscando cerrar fileiras na defesa das conquistas do governo de Obama

PAUL KRUGMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2015 | 02h03

Na sexta-feira, os democratas da Câmara dos Deputados dos EUA chocaram muita gente ao rejeitar provisões cruciais necessárias para concluir a Parceria Trans-Pacífico, um acordo que a Casa Branca deseja, mas boa parte do partido, não. No sábado, Hillary Clinton iniciou formalmente sua campanha para presidente e surpreendeu a maioria dos observadores com um discurso indisfarçavelmente populista e liberal.

Os dois acontecimentos estão relacionados, é claro. O Partido Democrata está ficando mais assertivo sobre seus valores tradicionais, um ponto marcado pela decisão de Hillary de falar na Ilha Roosevelt. Alguém diria que os democratas estão se deslocando para a esquerda. Mas a história é mais complicada e interessante do que essa simples declaração pode fazer crer.

É fácil perceber que, desde a eleição de Ronald Reagan, em 1980, os democratas têm estado na defensiva ideológica. Mesmo quando venceram eleições, eles pareciam temerosos de endossar posições claramente progressistas e ansiosos para demonstrar seu centrismo com o apoio a políticas como cortes na previdência social que provocavam o ódio de sua base. Mas essa fase parece ter acabado. Por quê? Parte da resposta é que os democratas, a despeito das derrotas nas eleições intermediárias, acreditam - com ou sem razão - que os ventos políticos lhes são favoráveis. A crescente diversidade étnica está produzindo o que deveria ser um eleitorado mais favorável; a tolerância crescente está transformando as questões sociais, que já foram um alimento da força republicana, numa vantagem democrata.

Reagan foi eleito por uma nação em que metade do público ainda desaprovava o casamento inter-racial; Hillary está concorrendo para liderar uma nação na qual 60% apoiam o casamento de pessoas do mesmo sexo.

Ao mesmo tempo, os democratas parecem ter finalmente adotado algo que cientistas políticos vêm nos dizendo há anos: adotar posições "centristas" na tentativa de atrair eleitores indecisos é uma tolice, pois esses eleitores não existem. A maioria dos supostos independentes está, de fato, solidamente alinhada com um partido ou com o outro e o punhado que não está é, sobretudo, apenas confuso.

Pode-se, portanto, tomar a posição em que de fato se acredita. Mas a mudança do partido não é só política, é também sobre política.

De um lado, o sucesso do Obamacare, a reforma do sistema de saúde promovida por Obama, e políticas afins - milhões cobertos por substancialmente menos que o esperado, controle surpreendente de custos do Medicare (sistema de seguro-saúde para maiores de 65 anos gerido pelo governo) - ajudaram a vacinar o partido contra afirmações de que os programas do governo nunca funcionam. E, de outro lado, os democratas de Davos que costumam ser uma força poderosa argumentando contra políticas progressistas perderam muito da credibilidade.

Estou me referindo ao tipo de pessoa (muitas, mas não todas, de Wall Street) que vai a inúmeras reuniões internacionais onde se asseguram mutuamente de que a prosperidade é uma questão de competir na economia global, e isso significa apoiar acordos comerciais e cortar gastos sociais. Essas pessoas têm influência, em parte, por suas contribuições financeiras para as campanhas, mas também pela crença de que elas realmente sabem como o mundo funciona.

Ocorre que elas não sabem. Nos anos 90, os homens pretensamente sábios nos asseguraram tranquilamente que não tínhamos nada a temer com a desregulamentação financeira, mas tínhamos. Quando a crise eclodiu, graças, em parte, a essa desregulamentação, eles nos advertiram de que devíamos ter muito medo dos investidores em bônus que castigariam os Estados Unidos por seus déficits orçamentários. Não castigaram. Então, por que acreditar neles quando insistem que devemos aprovar um acordo comercial impopular? E sua perda de credibilidade significa que, se Hillary chegar à Casa Branca, ela governará de maneira muito diferente do que fez seu marido nos anos 90.

Como eu disse, pode-se descrever isso como um deslocamento para a esquerda, mas há mais do que isso - e o fenômeno não é inteiramente simétrico ao movimento republicano para a direita. Os democratas estão adotando ideias que funcionam e rejeitando as que não funcionam, enquanto os republicanos estão fazendo exatamente o contrário.

E não estou sendo injusto. O Obamacare, que já foi uma ideia conservadora, está funcionado melhor do que seus defensores esperavam, levando os democratas a se mostrar comprometidos em defender suas realizações, ao passo que os republicanos estão mais fanáticos do que nunca em seus esforços para destruí-las. Impostos levemente mais altos para os ricos não prejudicarão a economia, enquanto as promessas de que cortes de impostos teriam efeitos mágicos se mostraram desastrosamente equivocadas. Por isso, os democratas ficaram mais confortáveis com uma modesta agenda de impostos e gastos, enquanto os republicanos estão mais agarrados do que nunca às teses do corte de impostos.

Evidentemente, mudanças ideológicas só importam na medida em que podem influenciar a política. E, embora as chances eleitorais provavelmente favoreçam Hillary e os democratas possam recuperar o Senado, eles têm pouquíssimas chances de recuperar a Câmara. Assim, as mudanças no Partido Democrata podem demorar para mudar os EUA como um todo. Mas está havendo alguma coisa importante e, no longo prazo, isso fará uma grande diferença. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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