Tom Brenner/REUTERS
Tom Brenner/REUTERS

Democratas desconfiam de pesquisas favoráveis

Em 2016, projeções indicavam vitória de Hillary Clinton, derrotada por Donald Trump

Beatriz Bulla / Correspondente, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2020 | 04h00

WASHINGTON - Joe Biden chega à véspera da eleição como favorito para ocupar a Casa Branca a partir de janeiro. O democrata tem em média 8 pontos de vantagem sobre Donald Trump nas pesquisas compiladas pelo site Five Thirty Eight. É um pouco mais do que o dobro do que a também democrata Hillary Clinton tinha no dia da votação em 2016.

Diferentemente da eleição anterior, a diferença de apoio entre os dois candidatos foi consistente desde junho. A lembrança de 2016, no entanto, quando Hillary chegou como favorita e perdeu para Trump, assombra democratas, hesitantes em comemorar antes da hora. Os americanos chegam à eleição com a dúvida: é possível confiar nas pesquisas?

“As pesquisas nacionais mostraram a maioria dos votos para Hillary, e ela teve. Mas o presidente foi eleito pelos votos do colégio eleitoral. Para simular o colégio eleitoral, são usadas pesquisas estaduais, que subestimaram o apoio a Trump”, afirma Michael Traugott, cientista político e especialista em pesquisas na Universidade de Michigan. A vitória de Hillary com 3 milhões de votos a mais do que Trump no voto popular estava em linha com a média das pesquisas nacionais. Há consenso entre analistas que Biden terá a maioria do voto popular, mas Trump pode novamente ganhar a disputa no colégio eleitoral, embora sua situação seja mais frágil dessa vez. 

Nate Silver, estatístico e fundador do site agregador de pesquisas Five Thirty Eight, ficou famoso por acertar o resultado de todos os Estados na eleição presidencial de 2012, após já ter previsto a vitória de Barack Obama em 2008. Mas, em 2016, as previsões de Silver apontavam que Hillary tinha quase 71,4% de chances de derrotar Trump. Neste ano, o site estima que Biden tem 89% de chances de vencer. 

Na noite de domingo, no entanto, Silver publicou um texto com o título: “Estou aqui para lembrá-los que Trump ainda pode vencer”. O fator decisivo apontado por ele é a vantagem “não espetacular” de Biden na Pensilvânia, onde o democrata tem 5 pontos a mais do que Trump. 

“Sem a Pensilvânia, Biden tem caminhos para a vitória, mas não há um Estado alternativo sobre o qual ele possa se sentir especialmente seguro”, escreveu Silver. Isso explica o motivo de Biden ter centrado esforços no Estado, onde nasceu, no domingo e na segunda-feira. Ele escalou a vice, Kamala Harris, e o seu principal cabo eleitoral, o ex-presidente Barack Obama, para comícios em Estados importantes do sul do país enquanto se manteve em sua terra natal.

Reduto da classe operária ligada à indústria pesada, a Pensilvânia foi um dos Estados que surpreenderam na última corrida presidencial ao dar a vitória estadual a Trump por apenas 44 mil votos. Foi ali onde ocorreu o maior erro das pesquisas, que subestimaram a participação do eleitorado branco sem diploma universitário.

A imprensa americana e a internacional retrataram o resultado da eleição como um desastre para as análises de dados. Em um artigo publicado em 2018 com o título “As pesquisas estão bem”, Silver argumentou que a “narrativa da mídia de que houve uma queda na precisão das pesquisas é uma bobagem”.

“As pesquisas nunca foram tão boas quanto a mídia supunha antes de 2016 e elas não são tão ruins como a imprensa parece acreditar que sejam agora. Na realidade, pouco mudou”, escreveu Silver. Segundo ele, a média de precisão dos levantamentos de 2016 está em linha com o histórico das pesquisas eleitorais americanas.

Como o voto não é obrigatório, as pesquisas nos EUA precisam medir não apenas a preferência do eleitor, mas também quais grupos vão, de fato, às urnas. Na média, as pesquisas nacionais têm sido mais precisas do que as estaduais, mas em 2016 a diferença de qualidade foi maior. Os resultados ficaram fora da margem de erro em Estados com grande número de eleitores brancos sem diploma universitário, como os do Meio-Oeste, o que foi determinante para Trump.

Institutos de pesquisa acreditam ter corrigido esse problema neste ano, ao dar mais peso para o nível de educação dos eleitores na ponderação dos dados. Alguns institutos passaram ainda a considerar o grau de escolaridade somado à identificação racial do eleitor.

Trump conseguiu energizar mais o eleitorado branco e sem diploma, enquanto Hillary não mobilizou parte da base dos centros urbanos na comparação com Barack Obama. No nível nacional, erros se anularam, mas a diferença influenciou o mapa do colégio eleitoral.

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“Se há um fator de mudança no jogo, em comparação com 2016, é que os americanos tiveram quatro anos de Trump como presidente. Gostem ou não dele, eles agora o conhecem”, afirma Tim Malloy, analista do instituto de pesquisa da Quinnipiac University. Em 2016, Trump era conhecido pela apresentação de reality show na TV americana, mas agora tem um histórico no governo para ser avaliado.

Em 2017, a Associação Americana de Pesquisa de Opinião Pública fez um estudo sobre as metodologias utilizadas em 2016. Algumas teorias que tentam explicar o fato de levantamentos subestimarem o poder de Trump foram testadas.

Uma das hipóteses que foi confirmada foi a mudança de última hora dos eleitores, a favor de Trump, nos Estados em que o republicano ganhou por uma margem apertada. Outro problema identificado foi a super representação de eleitores com educação superior nos modelos de pesquisa, o que favorecia a previsão de vitória de Hillary.

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