Democratas do Egito abandonam a democracia

Jovens que lutaram para tirar ditador Mubarak do poder em 2008 apoiam o golpe militar que derrubou Morsi

É COLUNISTA, JACKSON, DIEHL, THE WASHINGTON POST , É COLUNISTA, JACKSON, DIEHL, THE WASHINGTON POST , O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2013 | 02h12

Na primavera de 2008, uma mulher egípcia, de 27 anos, Esraa Abdel Fattah, criou uma página no Facebook para apoiar uma greve contra o regime autoritário de Hosni Mubarak. A greve não causou muito impacto, mas o perfil na rede social atraiu dezenas de milhares de seguidores. Não demorou para ela ser presa e, da noite para o dia, ela se tornou símbolo de um movimento florescente de jovens demandando mudanças democráticas.

Três anos depois, esse movimento desencadeou uma revolução que derrubou Mubarak e pareceu abrir as portas para a democracia liberal que os ativistas do Facebook haviam sonhado.

Abdel Fattah foi agraciada com uma grande fartura de prêmios de grupos ocidentais; uma ONG que ela chefiava, a Academia Democrática Egípcia, recebeu financiamento do National Endowment for Democracy, de Washington. Ela também foi indicada para o Prêmio Nobel da Paz. Quando a vi, no Cairo, no final de 2011, ela estava preparando, cheia de empolgação, uma operação de fiscalização das primeiras eleições parlamentares do Egito.

Hoje, no entanto, Abdel Fattah faz parte das legiões de ex-democratas egípcios que estão saudando o golpe militar contra o governo eleito de Mohamed Morsi. Segundo uma reportagem no New York Times, ela justificou a intervenção militar com uma explosão de hipérboles xenofóbicas. "Quando o terrorismo tenta se apoderar do Egito e a interferência externa tenta se imiscuir em nossos assuntos domésticos, é inevitável que o povo egípcio apoie suas Forças Armadas contra o perigo estrangeiro."

O que houve com os jovens liberais do Egito? Cinco anos atrás, eles eram o movimento mais promissor em um mundo árabe dominado por ditadores como Mubarak. Agora, a vasta maioria deles está saudando outro general, o líder golpista Abdel Fatah al-Sissi, cuja imagem está aparecendo em cartazes por todo o Cairo associada a dos ex-ditadores militares, como Gamal Abdel Nasser e Anwar Sadat.

Essa reviravolta vertiginosa não tem precedente na história de movimentos populares a favor da democracia. O Solidariedade, da Polônia, ou o movimento contra Augusto Pinochet, no Chile, jamais sonharam abraçar seus antigos opressores. Em defesa dos ex-democratas do Egito, pode-se argumentar que eles, diferentemente de suas contrapartes de outros lugares, tiveram de lutar em duas frentes: não somente contra a autocracia apoiada nos militares, mas também contra um movimento ideológico, a Irmandade Muçulmana, que, no governo de Morsi, parecia propensa a monopolizar o poder. É como atacar simultaneamente Pinochet e o Partido Comunista de Lenin.

Apesar de terem desencadeado a revolução de 2011, os liberais foram sempre mais fracos do que o Exército e do que a Irmandade - menos ricos, menos organizados, menos disciplinados. E como cinco eleições livres em dois anos demonstraram, eles tiveram pouca adesão entre a massa de egípcios pobres e rurais de fora do Cairo.

Antes orgulhosos de sua estrutura entrelaçada e sem lideranças, os liberais acabaram adotando o ex-inspetor nuclear da ONU, Mohamed ElBaradei, como líder. Foi uma escolha desastrosa: arrogante, fútil e mais confortável num salão vienense do que numa favela do Cairo, ElBaradei estava registrando dígitos simples nas pesquisas de opinião quando se retirou da corrida presidencial no ano passado.

Sem candidatura própria, os liberais se viram, no segundo turno, diante da escolha entre um candidato apoiado pelos militares e o islamista Morsi. A maioria escolheu Morsi. Uma delegação de jovens líderes se reuniu com o candidato da Irmandade e extraiu promessas: ministros seculares seriam incluídos no gabinete e a nova Constituição seria forjada por um consenso entre partidos seculares e islamistas.

Morsi cumpriu algumas promessas, mas seu governo foi ficando cada vez mais isolado e intolerante em meio à persistência do establishment da era Mubarak na burocracia, na polícia e no Judiciário. Jornalistas liberais foram processados por "insultar o presidente" e vários jovens líderes revolucionários foram presos por comandar protestos de rua.

Os liberais poderiam ter esperado e se organizado para as eleições parlamentares programadas para alguns meses depois. As pesquisas mostravam que o prestígio da Irmandade Muçulmana estava despencando.

Em vez disso, eles tomaram o caminho mais fácil e mudaram de lado. Como reportou o Wall Street Journal, nos meses que antecederam ao golpe, líderes da oposição secular se reuniram regularmente com os principais generais do Egito, que lhes prometeram reagir no caso de grandes manifestações de rua, destituindo Morsi.

De novo, os liberais estão dizendo que arrancaram promessas de seus novos parceiros. A Constituição será rapidamente emendada e eleições livres e limpas virão em seguida. Embriagados pelo sucesso de sua "segunda revolução", eles estão convencidos de que os militares se retirarão da política e os islamistas do Egito jamais vencerão outra eleição.

Enquanto isso, como vice-presidente, ElBaradei participa de um governo que está mantendo centenas de presos políticos incomunicáveis; que fechou a Al-Jazeera e a mídia islamista; que disparou sobre muitos manifestantes de rua desarmados. É um desfecho que Esraa Abdel Fattah e seus jovens amigos idealistas jamais teriam desejado cinco anos atrás. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.