Eric BARADAT / AFP
Eric BARADAT / AFP

Democratas estão divididos sobre o que fazer com relatório de Mueller

Líderes progressistas querem insistir no impeachment de Trump, mas pré-candidatos presidenciais estão mais cautelosos

James Oliphant / Reuters, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2019 | 05h00

WASHINGTON - Os democratas exigiram ver as conclusões do procurador especial Robert Mueller a respeito da relação entre a campanha do presidente Donald Trump com os russos. Agora que finalmente conseguiram, estão diante de uma encruzilhada: ou continuam no ataque ou viram a página.

Os democratas mais progressistas usaram o relatório para renovar seus pedidos de ação, mas havia pouco consenso sobre como avançar. O bilionário Tom Steyer, que injetou milhões de dólares em uma campanha pela renúncia de Trump, disse à Reuters que os deputados democratas devem iniciar o processo de impeachment com base nas evidências apontadas por Mueller.

O procurador não encontrou evidências de conluio entre membros da campanha de Trump e os russos, apesar dos vários contatos que tiveram. Mueller apresentou, porém, uma série de indícios de que o presidente tentou impedir ou controlar as investigações. Ele não chegou ao ponto de acusar a campanha de conluio, mas disse que o Congresso deveria abordar a questão.

Estrategistas democratas dizem que os congressistas do partido devem manter as investigações na Câmara dos Deputados, mas que os pré-candidatos à Casa Branca deveriam adotar uma posição menos agressiva, se quiserem o voto de eleitores moderados e independentes nas eleições de 2020. “Não acho que o relatório de Mueller fará diferença”, disse Robin Winston, ex-líder do Partido Democrata do Estado de Indiana. Falando sobre a fábrica da GM fechada no mês passado em Ohio, ele acredita que as preocupações econômicas serão muito mais prementes.

Sondagens mostram que a maioria dos eleitores americanos já tem um opinião formada sobre o relatório de Mueller. Pesquisa Reuters/Ipsos realizada no mês passado, depois que as conclusões de Mueller foram publicadas pela primeira vez, mostrou que metade do país ainda acredita que Trump trabalhou com a Rússia para influenciar a eleição de 2016. Mais da metade acredita que o presidente tentou obstruir a investigação.

Os democratas sinalizaram que continuarão a investigar Trump. Não está claro, no entanto, quais serão os próximos passos. Qualquer tentativa de impeachment seria barrada no Senado, controlado pelos republicanos. A presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, diz que o impeachment seria “contraproducente”. Mas a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, uma das novas estrelas do partido, voltou a defender a medida esta semana.

Os pré-candidatos presidenciais democratas estão cautelosos. Enquanto muitos exigem que Mueller testemunhe no Congresso, nem sequer mencionam a palavra “impeachment”. “Está claro que Trump não queria nada mais do que encerrar a investigação de Mueller”, disse e o senador Bernie Sanders. “Embora tenhamos hoje mais detalhes sobre o relatório, o Congresso deve continuar sua investigação sobre a conduta de Trump.”

Os pré-candidatos sabem que seus eleitores estão mais interessados em temas ligados a políticas públicas, saúde e mudanças climáticas. Em campanha no Estado de Iowa, o democrata Pete Buttigieg, um dos que disputam a vaga de candidato do partido, não ouviu dos eleitores uma pergunta sobre o assunto. O mesmo acontece com os outros nomes que estão em campanha. O ex-deputado Beto O’Rourke, por exemplo, resumiu esta semana a opinião da maioria. “Acho que o povo americano terá a chance de decidir isso nas urnas, em novembro de 2020. Talvez seja esta a melhor maneira de resolvermos esse problema”, disse.

Os democratas devem ter aprendido com as lições do ano passado, quando ganharam mais de 40 cadeiras na Câmara dos Deputados com o apoio dos moderados, que estão mais preocupados com temas que afetam diretamente a vida do cidadão comum. “A base vai exigir (o impeachment), mas um candidato presidencial tem de decidir se satisfaz a base ou adota uma visão mais ampla”, disse Rodell Mollineau, estrategista do partido.

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