Jim Watson/AFP
Jim Watson/AFP

Democratas falam em possível vitória ampla de Biden mesmo com a lembrança da votação de 2016

Os democratas continuam assombrados pelos fantasmas da derrota da favorita Hillary Clinton há quatro anos, mas alguns estão se permitindo pensar em uma vitória de Biden expressiva o bastante para reordenar a política americana

Astead W. Herndon, The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2020 | 08h30

MACON, GEÓRGIA - O presidente Donald Trump realizou um comício na Geórgia na sexta-feira, 18 dias antes da eleição geral de novembro. Para ele, esse é um mau sinal.

O fato de Trump seguir em campanha naquele que deveria ser um Estado já garantido pelos republicanos - e em outros que já deveriam estar consolidados ao seu lado, como Iowa e Ohio - comprova para muitos democratas que a vantagem de Joe Biden nas pesquisas de intenção de voto é sólida e durável. Trump passou a segunda feira no Arizona, outro Estado antes garantido pelo eleitorado republicano onde a impopularidade do presidente ajudou a tornar competitiva a candidatura de Biden.

Para alguns democratas, a atenção de Trump aos estados republicanos também é sinal de outra coisa - algo que poucos no partido se dispõem a comentar em voz alta, dadas as cicatrizes deixadas pela surpreendente vitória de Trump em 2016. Trata-se de um indício de que Biden poderia obter uma vitória esmagadora em novembro, alcançando uma vantagem ambiciosa e rara que, para alguns democratas, seria necessária para afastar qualquer dúvida - ou questionamento por parte de Trump - em relação à vitória de Biden nas eleições.

Em certo sentido, tal panorama seria totalmente plausível com base nas semanas restantes e na ampla gama de pesquisas públicas de opinião que indicam uma vantagem maior ou menor de Biden em estados fundamentais. Mas essa possibilidade se choca de frente com as dificuldades políticas de se alcançar tal resultado e, quem sabe ainda mais, os obstáculos psicológicos dos democratas à essa noção. Muitos acreditam que, depois de obter uma vitória surpreendente em 2016, Trump poderia repetir o feito, por mais que a situação atual seja diferente daquele ano, prejudicando suas chances.

Uma coisa sabemos: vitórias presidenciais por margem expressiva se tornaram uma raridade - a última foi em 1988, além do resultado mais modesto de 2008 - e Trump continua na frente ou perto de Biden em muitos estados onde o presidente venceu quando a margem de erro é levada em consideração.

Os democratas enxergam uma vitória em estados como Texas e Geórgia como a chave para uma possível vitória esmagadora; o Texas não elege um democrata para a presidência desde 1976, e a Geórgia, desde 1992. Uma pesquisa do The New York Times e da Siena College publicada na terça feira mostrou um empate entre Biden e Trump entre os eleitores prováveis na Geórgia.

"Enquanto os democratas não obtiverem uma vitória em todo o estado, não podemos considerá-lo dividido entre os dois partidos", disse Brian Robinson, consultor político republicano na Geórgia. "Talvez estejamos caminhando para essa situação. Mas, até que eles vençam, este é um estado republicano."

A derrota de Trump parece tão retumbante que, cada vez mais, alguns democratas acreditam na necessidade de mandar um recado político para os republicanos, uma mensagem moral ao restante do mundo, e em um propósito logístico essencial: apontar um vencedor indiscutível no Colégio Eleitoral no dia 3 de novembro, em vez de esperar por um prolongado processo de contagem de cédulas.

Para muitos, uma vitória expressiva que leve os democratas também ao controle do senado prepararia o palco para uma presidência séria, que não se limite a expulsar Trump.

"Para fazer o país avançar, ele terá que mostrar que há muita gente ao seu lado, alinhada com suas pautas", disse María Teresa Kumar, diretora executiva do grupo de mobilização eleitoral Voto Latino, que declarou seu apoio a Biden. "Mostrar que as pessoas querem enfrentar a mudança climática de maneira ousada. Querem melhorar o sistema de saúde, querem reformar o ensino de forma expressiva."

"A única maneira de fazer os republicanos recuarem é garantir um comparecimento às urnas maciço nessa eleição".

Para um partido ainda traumatizado pelos fantasmas de 2016, o excesso de confiança pode ser a última coisa que a maioria dos democratas sentem ou querem demonstrar.

"Essa disputa é muito mais acirrada do que indicam os especialistas que vemos no Twitter e na TV", dizia um memorando da semana passada assinado pela gerente da campanha de Biden, Jennifer O’Malley Dillon. "Nos principais estados em disputa onde a eleição será decidida, continuamos ombro a ombro com Donald Trump."

Mas até alguns republicanos começaram a falar em uma possível lavada em uma onda democrata que entregaria a Biden uma imensa vitória no Colégio Eleitoral e ajudaria os democratas a retomarem o senado.

Na semana passada, o senador republicano Ben Sasse, do Nebraska, alertou os incumbentes para a possibilidade de um "banho de sangue republicano" em novembro, atraindo com isso a ira do presidente. O magnata da mídia conservadora, Rupert Murdoch, disse aos amigos acreditar que Biden vencerá com vantagem expressiva, de acordo com uma reportagem publicada que ele não contestou.

A campanha de Biden também aumentou as viagens e investimentos nos estados que estariam fora do alcance para os democratas - enviando Jill Biden ao Texas e programando eventos para a senadora Kamala Harris e o marido na Geórgia e em Ohio até um membro de sua equipe contrair o coronavírus, restringindo assim sua agenda de viagens.

Mas talvez o sinal mais expressivo de uma expansão do mapa democrata são os indícios demonstrados pela campanha de Trump, que leva o candidato a lugares como Macon em vez de tentar investir seus recursos em estados onde Hillary Clinton venceu em 2016.

O candidato democrata Jon Ossoff, que disputa uma das vagas ao senado pela Geórgia, se disse grato pelo investimento ampliado de Biden no estado. Ele defendeu que uma vitória democrata no senado representaria mais do que uma cadeira adicional no senado ou 16 votos do Colégio Eleitoral na disputa presidencial. Ele disse que isso romperia o domínio republicano no Sul dos EUA e venceria a "Estratégia sulista" que aposta na divisão racial e mantém a região sob sólido controle republicano há décadas.

De acordo com Ossoff, uma vitória mostraria "que não é mais possível dividir os sulistas de acordo com as fronteiras raciais para vencer eleições. Pois haverá uma coalizão multirracial exigindo uma liderança mais progressista".

Em entrevista recente, o ex-candidato à presidência Beto O’Rourke fez afirmações semelhantes em relação ao seu estado natal, Texas.

"Mais do que qualquer outro estado, o Texas tem a capacidade de decidir na noite da eleição", disse ele. "E seria um caso de justiça poética e política se o estado onde é mais forte a supressão de um eleitorado tão diverso tivesse um comparecimento imenso que garantisse uma vitória a Joe Biden."

Robinson, o consultor republicano, disse acreditar que as pesquisas de opinião são demasiadamente direcionadas para o eleitorado democrata.

"Faz anos que vemos pesquisas de opinião mostrando os democratas na frente ou empatados em meados de outubro", disse Robinson. "A mídia se empolga, os democratas ficam confiantes, e então os republicanos vencem."

"Se as pesquisas de intenção de voto mostram um empate na Geórgia, isso significa que os republicanos estão vencendo".

O democrata Dennis Jackson, 58 anos, que votou antecipadamente em Atlanta um dia antes do comício de Trump, demonstrou o mesmo ceticismo de Robinson, depois da frustração da eleição de 2016 e da disputa pelo governo estadual em 2018, quando a democrata Stacey Abrams perdeu para o republicano Brian Kemp por uma diferença pequena.

"Mais pessoas estão se envolvendo", disse Jackson, "mas alguns não sabem como essas coisas funcionam. Eu sei". / Tradução de Augusto Calil

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