Tom Brenner/The New York Times
Tom Brenner/The New York Times

'Democratas não têm uma visão clara de qual é o problema específico', diz analista

Para professor americano, Pelosi tem sido cautelosa sobre votar um impeachment na Câmara por avaliar que decisão pode prejudicar alguns democratas

Entrevista com

Tim Hagle, professor de ciências políticas da Universidade de Iowa

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 08h00

A decisão da líder democrata na Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, de abrir um inquérito de impeachment contra o presidente Donald Trump pode ser parte de uma grande manobra política, uma vez que a oposição ainda não tem claro sobre quais crimes ele deva responder, na avaliação do professor de ciências políticas da Universidade de Iowa Tim Hagle. No entanto, ele reconhece que a situação para o presidente nunca foi tão séria, uma vez membros moderados da oposição, incluindo Pelosi, se mostraram abertos à possibilidade de um impeachment contra o presidente, como afirmou em entrevista ao Estado.  

Qual o peso da decisão de Pelosi de abrir um inquérito de impeachment? 

Bem, duas coisas é preciso dizer sobre essa decisão. A primeira é que como muitos já indicaram, isso não muda realmente muita coisa. Mesmo que Pelosi tenha ordenado a abertura de um inquérito, não é um impeachment propriamente dito. Para que haja um, é preciso primeiro uma votação na Câmara, o que a líder democrata tem tentado evitar para não expor seus membros. Então, nesse sentindo, é basicamente a continuação do que já estava acontecendo na Câmara (procedimentos) e um reconhecimento oficial de que estão avaliando essa possibilidade. Eles (democratas) vão votar o processo de qualquer forma. Mas essa foi a primeira vez que Pelosi e alguns membros moderados da Casa decidiram mostrar que estão mais abertos a essa possibilidade.  

Qual é o outro aspecto? 

O segundo aspecto a se destacar é que a situação realmente começou a ficar séria, mesmo que ainda não haja um processo oficial, já que a Câmara ainda não votou o início do procedimento. Mesmo assim, há um reconhecimento de que mais pessoas, incluindo membros moderados da Câmara, estão realmente falando sério sobre essa questão e isso é realmente muito perigoso. Eu sei que vários membros vem dizendo há muito tempo, alguns há mais tempo do que outros, que eles acreditam que Trump fez coisas terríveis. Alguns afirmam até que ele cometeu crimes, mas até agora ele não foi indiciado por nenhum crime. 

E ele poderia ter sido indiciado por algo? 

Esse tem sido o argumento, de que não pode ser indiciado, já que é presidente. Ok, isso é verdade. Há menção disso no relatório do (procurador especial Robert) Muller, mas certamente é algo dividiria ainda mais as pessoas. Nosso país, como se sabe, passa por uma divisão partidária muito forte nesse momento. A retórica está muito agressiva e isso vem do presidente, por um lado, e, por outro, os democratas não ajudam muito. Alguns democratas têm pedido o impeachment de Trump muito antes. Na verdade, desde o dia em que ele foi eleito. Agora, eles podem ir adiante, mesmo que ainda não haja uma votação oficial (de impeachment). O fato é que estão mais perto de abrir um processo. 

    

Isso poderia gerar um desgaste para os democratas? 

Se essa história do telefonema para o presidente da Ucrânia não for nada demais, de certa forma, poderá causar um desgaste para os democratas. Mas precisamos ver como a história se desenvolve. No mínimo, ela vai atrair a atenção de muitas pessoas para o caso. Talvez até a oposição esteja pensando (atrair atenção) em outros temas, como por exemplo, o Irã, se a economia está boa em todos os setores. Isso também coloca outros pré-candidatos à presidência em evidência porque é preciso imaginar que eles serão questionados, ainda que alguns já tenham feito isso, como a senadora Kamala Harris, que apoia o impeachment. 

Quanto tempo vai durar esse processo? 

Bem, temos de ter em mente que estamos basicamente no ciclo de eleição presidencial. Os democratas estão fazendo campanha para se tornar o indicado do seu partido. De certa forma, seria uma boa ideia talvez esperar para ver o que os eleitores vão decidir, seria mais apropriado. Mas, por outro lado, se os democratas realmente se engajarem nesse comportamento, conduzindo as audiências e tentando obter evidências que prejudiquem a imagem do presidente, eles podem reduzir suas chances de ser reeleito. 

É um processo político? 

É o lado político da coisa e infelizmente é o que se trata essa medida, ela é totalmente política. Se o presidente claramente tivesse feito algo que todos entendem ser prejudicial e por isso faria sentido removê-lo, tudo bem. Mas não é isso que está acontecendo agora. Os democratas não têm uma visão clara de qual é o problema específico. Eles não gostam de Trump, nem das coisas que ele tem feito, mas não há um acordo entre eles sobre qual deve ser a mensagem específica que justifique removê-lo do cargo. 

As regras que tratam do processo não são um pouco vagas? 

Como se pode ver na nossa Constituição algumas partes, como você se referiu, são vagas quando se fala em "altos crimes e delitos'. Não há uma definição rápida para isso. Está realmente nas mãos dos membros do Congresso, em particular, da Câmara, e eles podem levar o tempo que quiserem (para definir isso). Em termos de investigação, até eles obterem informações suficientes para elaborar os artigos para um impeachment - que com certeza o farão, já que têm a maioria - pode levar muito tempo. E eles também tentarão reunir evidências suficientes para talvez conquistar os votos de alguns republicanos. 

E depois dar início ao processo? 

Mesmo que se chegue aos artigos de um impeachment, é preciso considerar, mais uma vez, a questão política da coisa. Há uma preocupação de que membros democratas que estão concorrendo nos distritos mais competitivos, se votarem pelo impeachment, podem perder a vaga na Câmara (para um republicano). É o tipo de política que não deveria estar sendo jogada nesse acaso, mas claramente está. E essa é uma das razões que Pelosi tem sido tão relutante em autorizar a Câmara a votar os artigos de impeachment. 

O que viria em seguida?

O aspecto para se ter em mente aqui é que a Câmara vota pelo impeachment, mas é tudo parte de uma acusação formal. O julgamento vai para o Senado e é o voto nessa Casa que na verdade remove o presidente, o que exige uma maioria de dois terços dos senadores. É um julgamento cuja única penalidade é remover o presidente do cargo. E nesse momento não há republicanos o suficiente para se juntar aos democratas para remover o presidente. No caso do presidente Clinton, o impeachment foi aprovado na Câmara, mas o Senado escolheu não removê-lo do cargo, então nem houve votação. 

É um processo sem tempo previsto? 

Além disso, muitos eleitores podem ver tudo isso como um movimento político dos democratas que pode, na verdade, ajudar o presidente. Tenho ouvido argumentos dos dois lados. Em resumo, não sabemos quanto tempo isso pode durar. Depende de quanto os democratas querem se embrenhar nisso. Até agora, temos visto eles investigando o presidente de várias maneiras quando se trata de Rússia, durante toda a sua presidência. E tenho certeza de que isso continuará pelos próximos 14 meses até o dia da eleição. 

 

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