Democratas prometem moralizar Congresso dos EUA

O 110º Congresso americano tomou posse nesta quinta-feira com os democratas controlando pela primeira vez em 12 anos a Câmara dos Representantes e o Senado. Após afastar os republicanos do poder nas eleições de meio de mandato, em 7 de novembro, os democratas prometeram pressionar por uma retirada gradual dos soldados americanos do Iraque, acabar com a crescente brecha entre ricos e pobres nos EUA e limpar as irregularidades no Congresso, abalado por vários escândalos."Hoje fizemos história. Hoje mudamos o rumo do nosso país", exaltou-se a deputada Nancy Pelosi, que será a primeira mulher a presidir a Câmara na história dos EUA. Acompanhada por seus netos, Pelosi parecia radiante quando seu nome foi confirmado. Ela prometeu empenhar-se em um ambicioso plano para pressionar a aprovação de leis em várias frentes durante as primeiras 100 horas de sessão da Câmara.A principal delas são medidas moralizadoras para reverter os estragos provocados pelos escândalos éticos que marcaram a atual legislatura e que resultaram na renúncia de quatro deputados republicanos no ano passado. Entre elas estão uma lei que proíbe que congressistas aceitem presentes oferecidos por lobistas e a restrição de viagens financiadas por grupos privados. Os legisladores também seriam proibidos de voar em jatos corporativos. As viagens dos congressistas financiadas por grupos de fora da Câmara teriam quer ser aprovadas pela Comissão de Ética e imediatamente tornadas públicas. "Os democratas estão de volta", disse Pelosi em um evento mais cedo nesta quinta-feira. "As eleições de 2006 foram um chamado pela mudança - e não apenas uma mudança no controle do Congresso, mas por uma nova direção para o nosso país. Nunca o povo americano foi tão claro sobre a necessidade de uma nova direção para o conflito no Iraque. Os americanos rejeitaram a obrigação com uma guerra sem fim."Além da estratégia para acabar com o que ela classificou como a "cultura de corrupção" em Washington, a deputada anunciou que os democratas planejam elevar o salário mínimo e abrandar as restrições para as pesquisas com células tronco. As propostas democratas para dar "uma nova direção à América" - seu slogan de campanha - também incluem a redução das taxas de juros em empréstimos educacionais federais, a suspensão de algumas isenções tributárias para grandes empresas petrolíferas e autorização para que o governo negocie preços mais baixos em medicamentos para idosos. Além disso, os democratas querem preparar os EUA para alcançar um equilíbrio orçamentários nos próximos cinco anos. Na quarta-feira, o presidente George W. Bush deu apoio a essa meta, mas sem explicar como. SenadoNos primeiros pronunciamentos desta quinta-feira, tanto democratas como republicanos pediram que a cooperação marque a 110ª legislatura a assumir nos Estados Unidos. As declarações vão de encontro com anos de impasses e troca de farpas entre os dois partidos. É dado como certo que haverá embates entre os dois lados em temas como a estratégia para o Iraque, as atuais restrições às pesquisas com células-tronco e a redução das desigualdades sociais.Apesar do clima de otimismo democrata na Câmara (onde os democratas contam com uma maioria de 233 contra 202 republicanos), a situação no Senado é mais complicada. Na câmara alta do Congresso, os democratas contam com apenas dois votos de vantagem - são 51 contra 49 dos republicanos. Esta frágil margem deve dificultar a aprovação de legislações propostas pelos democratas sem o apoio de alguns republicanos."Nos esforçaremos para trabalhar com uma base bipartidária", disse o novo líder da maioria no Senado, Harry Reid.Mas o espírito de cooperação entre republicanos e democratas será colocado à prova pela questão do Iraque, sobre a qual nos próximos dias Bush deve apresentar uma nova estratégia, possivelmente com um aumento imediato de tropas, ao contrário da retirada gradual defendida pelos democratas. Reid disse que será necessário que o Congresso continue trabalhando em outros temas apesar das divisões sobre o Iraque.O vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, que pela legislação americana também é presidente do Senado, acompanhou os juramentos dos novos senadores, a começar pelo presidente pro tempore (esse sim, eleito pelos senadores) Robert C. Byrd, um Democrata - o terceiro na linha de sucessão presidencial - eleito pela nona vez. Nas galerias do Senado, o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e sua filha Chelsea aplaudiram e acenaram para a senadora Hillary Rodham Clinton, que prestou juramento para seu segundo mandato.A reviravolta democrata no Congresso americano também abrirá um novo capítulo na presidência de Bush, que terá apenas mais dois anos para cimentar seu legado na Casa Branca. Nesta quinta-feira, o presidente teve uma agenda pública restrita, em parte para deixar que as atenções se voltem apenas para o Congresso.Texto ampliado às 21h05

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