Josh Haner / The New York Times
Josh Haner / The New York Times

Democratas, revejam a imigração

O projeto liberal mais recente se centraliza na identidade, afirmando não a unidade, mas a diferença

FAREED ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2017 | 05h00

Em 1992, o Partido Democrata teve de se defrontar com a questão do aborto. O governador da Pensilvânia, Robert Casey, democrata ligado à classe operária, pediu para se pronunciar a respeito durante a convenção, em Nova York. Ele propôs que uma cláusula antiaborto constasse da plataforma do partido, afirmando suas crenças católicas.

Ele sabia que a moção seria rejeitada, mas o partido nem mesmo permitiu que ele expusesse suas ideias, tão grande a sua heresia. “Isso enviou uma vigorosa mensagem para os eleitores católicos e evangélicos da classe operária de que, se não concordassem com o ponto de vista do partido, não seriam mais acolhidos por ele”, escreve Mark Lilla em The Once and Future Liberal, seu brilhante livro que será publicado no fim do mês.

Eu me pergunto se hoje os democratas não estão cometendo o mesmo erro no caso da imigração. Acho que o projeto de lei apresentado pelos republicanos, na semana passada, é ruim em termos de política pública e mesquinho. Mas este não é o problema. Lilla admite ser absolutista na defesa do aborto, mas afirma que um partido nacional tem de criar um leque muito grande que acomode as pessoas que podem discordar de sua principal linha em alguns temas.

Em sua opinião, o liberalismo americano passa por uma grande crise. Ao visitar a página na internet do Comitê Nacional Republicano, ele encontrou uma declaração dos princípios que guiam o partido, começando com a Constituição e terminando com a imigração. No site dos democratas, ao contrário, havia uma série de links para “People” ou Pessoas. Ao examinar as páginas respectivas, ele encontrou passagens destinadas especificamente a um e outro grupo – mulheres, hispânicos, americanos natos, negros, asiáticos. 

Fazendo alusão ao sistema do Líbano de divisão de poderes entre grupos étnicos e religiosos, Lilla escreve: “Você pensaria que, erroneamente, entrou no website do governo libanês e não no de uma agremiação política com uma visão de futuro dos EUA” – hoje, o website do Comitê Nacional Democrata exibe a plataforma do partido com mais destaque. 

“O liberalismo americano tem dois planos de ação diferentes”, diz Lilla. O primeiro foi concebido por Franklin Roosevelt – um esforço coletivo, nacional, para ajudar todos os americanos a participar da vida política e econômica do país. Seu símbolo eram duas mãos se estreitando, afirmação da força da unidade nacional. 

O projeto liberal mais recente se centraliza na identidade, afirmando não a unidade, mas a diferença, alimentando e celebrando não as identidades nacionais, mas as subnacionais. “Uma imagem recorrente de identidade do liberalismo é a de um prisma que refrata um raio de luz em suas cores produzindo um arco-íris. Isso diz tudo.”

A imigração é um tema perfeito em que os democratas demonstram estar preocupados com a unidade e a identidade nacionais e entendem os eleitores para quem este tema é sua principal preocupação. Basta examinar pesquisa feita pelo Democracy Fund, em 2016. Se você comparar dois grupos de eleitores – os que votaram em Barack Obama, em 2012, e em Hillary Clinton, em 2016, e aqueles que votaram em Obama, em 2012, e em Donald Trump, em 2016, a maior divergência está na imigração. Em outras palavras, há muitos americanos simpáticos às ideias democratas, mas em alguns assuntos – especialmente a imigração – acham que o partido perdeu contato com a realidade. E estão certos. 

A imigração legal nos EUA aumentou exponencialmente nas cinco últimas décadas. Em 1970, 4,7% da população americana era de origem estrangeira. Hoje, são 13,4%. Uma mudança muito grande, e é natural que provoque alguma inquietação.

E essa inquietação vai além do problema do emprego. Em seu livro Who Are We?, publicado em 2004, o estudioso de Harvard Samuel Huntington destacou que a escala, velocidade e concentração de imigrantes mexicanos nos Estados Unidos, após 1965, foram sem precedentes na história do país e provocariam uma reação violenta. 

Segundo ele, os EUA tinham mais do que apenas uma ideologia fundamental, uma cultura que moldou fortemente essa ideologia. “Os EUA seriam o que são hoje se, nos séculos 17 e 18, o país não tivesse sido colonizado por protestantes britânicos, mas por católicos franceses, espanhóis ou portugueses?” questionou. “A resposta é não. Neste caso, não seriam os EUA, mas Quebec, México ou Brasil.” Ele defendeu alguns limites modestos à imigração e uma ênfase maior na assimilação.

Os democratas devem encontrar um meio termo nesse assunto. Eles combatem as soluções radicais propostas por Trump, mas ainda estão presos à linguagem da identidade e unidade nacional. Afinal, o lema do país é “E pluribus, unum” (De muitos, um) – não o contrário. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

* É COLUNISTA

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