Siphiwe Sibeko / Reuters
Siphiwe Sibeko / Reuters

Democratas usam Obama para tentar retomar a Câmara

Grupo ligado ao ex-presidente intensifica esforços para vencer republicanos em 27 distritos cruciais nas eleições de novembro

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2018 | 05h00

Ele não dá declarações, nem publica freneticamente nas redes sociais, mas o ex-presidente Barack Obama tem desempenhado um papel importante na estratégia do Partido Democrata para tentar retomar a maioria na Câmara dos Deputados nas eleições de meio de mandato, em novembro. 

Um comitê político formado por ele está seguindo os moldes de suas campanhas presidenciais para mobilizar eleitores em distritos estratégicos, hoje controlados por republicanos, mas onde os democratas acreditam serem capazes de vencer. 

O envolvimento de um ex-presidente americano nas eleições do Congresso é raro, avalia a cientista política Renee Van Vechten, da Universidade de Redlands (Califórnia), mas não é proibido. “É igualmente sem precedentes que um presidente no cargo inicie a campanha para a reeleição apenas um mês depois de eleito, e continue fazendo isso desde então”, afirmou ela, em entrevista ao Estado, em referência ao presidente Donald Trump.

O ex-presidente não está diretamente envolvido no trabalho do comitê Organizing for Action, mas, segundo reportagem do New York Times, o grupo é chefiado em grande parte por seus ex-conselheiros e reflete suas orientações políticas. 

No site do comitê, a foto que aparece é a de Obama. Ainda segundo o Times, a campanha do comitê foi desenhada durante uma reunião entre o ex-presidente e estrategistas, na qual ele teria afirmado que recapturar a Câmara e ajudar os democratas a ganhar influência política nos Estados eram seus dois objetivos. 

O comitê estabeleceu 27 cadeiras em 13 Estados, hoje nas mãos de deputados republicanos, para centrar fogo. Esses locais, como explica Renee, são habitados por eleitores moderados, ou seja, que podem votar tanto em democratas como em republicanos ou por eleitores não radicais, descontentes com o governo Trump, segundo pesquisas. 

Parte importante do trabalho, explica a cientista política, é convencer esses eleitores a ir votar (nos EUA, o voto não é obrigatório). “Nesses distritos que têm alguma chance de mudar de mãos entre os partidos, os eleitores serão cobertos de propaganda e informação que os convença a ir votar.” 

Os distritos eleitorais considerados estratégicos podem variar, de acordo com análise de diferentes grupos e institutos. Mas, em geral, explica ao Estado o analista Ruy Teixeira, do Center for American Progress, são cadeiras republicanas em distritos nos quais Hillary Clinton venceu as eleições de 2016, ou as disputas estão muito abertas. 

Na sua contagem, pelo menos 66 distritos têm esse perfil e o Partido Democrata precisaria vencer em 23 deles para obter a maioria na Câmara. 

Obama, porém, não deve sair dos bastidores tão cedo. “Talvez ele saia das sombras caso se convença de que poderá ajudar os democratas nas eleições de meio de mandato em vez de prejudicá-los”, afirma Renee. Seu envolvimento direto poderia ser munição e provocar grande reação por parte dos apoiadores de Trump.

“Ninguém motiva mais eleitores republicanos do que Barack Obama”, ironizou o porta-voz do Comitê Nacional Republicano do Congresso, Matt Gorman, ao Times. “Agradecemos a essa organização política por sua singela contribuição para manter o Partido Republicano no controle da Câmara.”

Senado

No Senado, o cenário para os democratas não é tão favorável. Segundo Teixeira, o partido de oposição precisará mais de sorte do que de estratégia. Dos 100 assentos, apenas 33 serão renovados e todos eles estão em Estados em que Trump venceu Hillary. “No sistema eleitoral americano, cada eleição (para Senado) dependerá do mapa dos Estados que estão trocando as cadeiras. Às vezes, isso favorece um partido, às vezes o outro”, disse Teixeira, autor de The Optimistic Leftist: Why the 21st Century Will Be Better Than You Think (Esquerda Otimista: Por que o século 21 será melhor do que você pensa, em tradução livre). 

Das 33 cadeiras renovadas, 8 estão com republicanos, 23 com democratas e 2 com independentes, que votam com os democratas. O partido de oposição terá a difícil tarefa de continuar com esses 25 senadores, distribuídos em 10 Estados que votaram para Trump em 2016. 

Teixeira prevê um Congresso dividido, com controle republicano no Senado e democrata na Câmara. “Poderemos ver várias iniciativas de investigações contra Trump e luta para impedir a passagem de leis conservadoras (na Câmara). Mas em geral pouca coisa vai acontecer.”

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