Ivor Prickett/The New York Times
Ivor Prickett/The New York Times

Dentro da prisão do EI na Síria, crianças perguntam sobre seu destino

Visitas raras a duas prisões para ex-moradores do território do Estado Islâmico no nordeste da Síria feitas pelo 'New York Times' expuseram a enormidade da crescente crise legal e humanitária que o mundo escolheu ignorar

Ben Hubbard e Ivor Prickett / The New York Times , O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2019 | 07h00

Os prisioneiros recobrem o chão como se fossem um tapete de desespero humano. A muitos deles faltam os olhos ou membros, outros expõem os ossos de tão magros por causa de doenças e a maioria usa macacões alaranjados, vestidos como seus próprios reféns do grupo terrorista ao qual pertenciam, antes de serem mortos.

No andar de cima, amontoadas em celas com pouca iluminação, há mais de 150 crianças - com idades entre 9 e 14 anos - de vários países. Seus pais os trouxeram para a Síria e acabaram mortos ou detidos. As crianças estão aqui há meses e não têm ideia se possuem parentes ou qual será seu futuro.

“Eu tenho uma pergunta”, disse um garoto do Suriname dentro de sua cela. “O que vai acontecer com a gente? As crianças vão sair?”

Visitas raras a duas prisões para ex-moradores do território do Estado Islâmico no nordeste da Síria feitas pelo New York Times nesta semana expuseram a enormidade da crescente crise legal e humanitária que o mundo escolheu ignorar.

Quando o autodeclarado califado do Estado Islâmico entrou em colapso na Síria, milhares de homens, mulheres e crianças que viviam lá terminaram em campos e prisões lotadas administradas pela milícia liderada pelos curdos que tinha parceria com os Estados Unidos para derrotar os jihadistas.

Mas agora que uma incursão militar da Turquia contra as forças curdas gerou nova onda de violência e debilitou seu controle sobre a área, a incerteza aumentou sobre o destino da imensa população que sobreviveu à derrocada do EI e, desde então, está amontoada em prisões e campos de detenção.

A maioria de seus países se recusou a recebê-los de volta, com medo que eles abriguem pensamentos extremistas ou possam realizar ataques. Então, os governos escolheram deixá-los sob custódia de uma força liderada pelos curdos que carece de recursos para abrigar, alimentar e protegê-los, muito menos investigar os adultos e fornecer educação e reabilitação às crianças.

Muito pouco sobre as condições dos menores nas prisões administradas pelos curdos parece atender a padrões internacionais e deveriam priorizar o bem-estar das crianças em primeiro lugar, assim como considerar a detenção um último recurso e exigir cuidado especializado, físico e emocional.

Uma cela lotada tinha 86 menores - da Síria, Iraque, Ilhas Maurício, Rússia e outros lugares. Outra estava com 67 adolescentes e um garoto que dizia ter 9 anos e ser da Rússia.

Quando lhe perguntaram onde estavam seus pais, ele deu de ombros e disse: “Eles foram mortos”. Mais tarde, ele perguntou a seus captores: “Por que eles não nos trazem frutas?”

A confusão em torno dos detidos só piorou depois que o presidente Donald Trump começou a tirar as forças americanas da área, uma decisão que abriu caminho para que a Turquia iniciasse o ataque contra aliados fundamentais dos EUA na guerra contra o Estado Islâmico na Síria.

A multidão nas prisões aumentou porque os combatentes curdos, que são vistos como uma ameaça pela Turquia, transferiram centenas de prisioneiros para longe da fronteira, para instalações mais distantes da área de combate, disseram oficiais curdos. E combatentes que trabalharam como guardas na prisão escaparam para as linhas do front para combater os turcos, deixando as instituições mais vulneráveis a revoltas de prisioneiros ou ataques do Estado Islâmico para libertar seus companheiros.

“Temos 100% de certeza de que, se tiverem a oportunidade, vão escapar da prisão”, disse Can Polat, assistente do diretor de uma prisão com mais de 5 mil. “Manter essas pessoas aqui não é apenas um perigo para a Síria, é um perigo para o mundo inteiro”.

A prisão de Polat é um instituto industrial convertido. Um quarto dos presos são sírios, o restante abrangendo 29 países, incluindo Iraque, Líbia, Egito, Afeganistão, Holanda e Estados Unidos.

A instalação foi inaugurada em torno do colapso do Estado Islâmico na Síria, que causou um fluxo imenso de prisioneiros. Como o Estado Islâmico vestia os cativos com roupas laranja antes de matá-los, muitos dos prisioneiros ficaram apavorados ao ter de vestir as roupas nessa cor, que lhes foram fornecidas, disse Polat.

Os macacões laranja agora enchem a prisão. A maioria dos 400 homens em uma vasta ala médica os usava. Muitos deles estavam doentes ou feridos. Homens com aparelhos de metal substituindo os ossos quebrados estavam deitados em colchões finos, enquanto outros se arrastavam para o banheiro de muletas ou se arrastavam no chão, sem poder andar.

Alguns estavam tão magros que suas maçãs do rosto se destacavam e suas pernas estavam eram tão finas quanto os braços. Quando um homem fez a chamada para a oração, muitos dos prisioneiros ficaram no lugar, porque estavam feridos ou doentes demais para ficar em pé.

Os guardas curdos imaginam que a maioria dos homens provavelmente eram combatentes e ainda seguem a ideologia do Estado Islâmico, mas os próprios prisioneiros minimizaram seu papel na organização terrorista mais temível do mundo.

Um palestino com uma perna quebrada disse que fora à Síria porque "queria ajudar". Um mecânico de Trinidad disse que não havia lutado porque estivera ocupado demais consertando veículos. Um russo alto e musculoso disse que ele era cozinheiro - em uma escola primária.

Em dezenas de entrevistas em duas prisões ninguém admitiu ser um combatente.

Outra cela na prisão mantinha 99 homens, a maioria dos quais havia perdido membros, incluindo Abdelhamid al-Madioum, que se descrevia como um americano que morava perto de Minneapolis.

Em uma entrevista, ele disse que havia trabalhado em uma escola do ensino médio, que seus melhores amigos eram ateus e cristãos, e que estudava engenharia antes de ingressar no Estado Islâmico na Síria, onde esperava estudar medicina.

Mas alguns meses depois de sua chegada, ele disse, foi atingido num ataque aéreo que despedaçou seu corpo e decepou seu braço direito. Na época em que foi capturado por combatentes curdos este ano, disse que sua mulher foi morta a tiros e ele perdeu contato com seus dois filhos pequenos, de 2 e 4 anos.

“Eu cometi um erro", disse ele. “Eu admito. Eu admito isso mil vezes. “

Não ficou claro porque alguns menores foram colocados na prisão, enquanto a maioria dos filhos de combatentes e seguidores do Estado Islâmico foram levados para campos de detenção. Suas celas estavam lotadas, sem espaço livre entre colchões e cobertores. Quando um guarda abriu uma escotilha na porta da cela, as crianças se aglomeraram para espiar do lado de fora.

Sob as normas da ONU para justiça juvenil, mesmo sob suspeita de crimes, deve-se considerar a detenção de menores “uma medida de último recurso e pelo menor tempo possível”.

Enquanto o Estado Islâmico treinava meninos para lutar, não estava claro se isso era verdade para os meninos na prisão. Nenhum estava aguardando julgamento, porque as autoridades curdas sírias não julgam estrangeiros.

A ONU também afirma que os jovens detidos devem receber toda a assistência necessária, incluindo educação, assistência médica e aconselhamento.

Os meninos na prisão disseram que quase não receberam serviços. “A situação é muito ruim aqui, então seria bom se eles pudessem se apressar e decidir sobre nosso destino”, disse um garoto de 16 anos, das Ilhas Maurício. “Ao passar meses assim, sem saber o que vai acontecer, as pessoas podem começar a enlouquecer. Eles podiam dizer que eram terroristas antes do EI, mas ainda são seres humanos.”/ TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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