Dentro das prisões de Bashar Assad

'Por mais de um mês permaneci numa cela de 4,5 metros quadrados com mais de 30 mulheres. Tenho sorte de estar viva'

ALISE MOFREI, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2015 | 02h04

Na primavera de 2011 centenas de milhares de sírios começaram a protestar, exigindo o fim da ditadura do presidente Bashar Assad. A resposta do regime foi intensificar os métodos de repressão usados contra os oponentes políticos desde os anos 70: detenções arbitrárias, desaparecimentos e tortura.

Eu trabalhava como professora de Árabe no subúrbio de Germana, em Damasco, onde vivia com meu marido. Ambos éramos ativistas de um partido de oposição de esquerda reprimido há décadas.

Fundei também uma organização chamada Syrian Women for a State of Citzenship, empenhada em criar oportunidades de trabalho para mulheres e que visava a amainar o conflito entre facções armadas.

Fui presa pela primeira vez em 20 de julho de 2011, por ter participado de uma manifestação pacífica no centro de Damasco. Junto com outras seis pessoas, fui esmurrada, espancada com cassetete elétrico pelos membros da shabiha, a milícia baathista leal à família Assad. Fomos maltratados e agredidos antes de nos entregarem para a polícia.

Ficamos detidos por 12 dias e depois levados ao tribunal, que nos liberou sob fiança. Finalmente o processo iniciado contra nós por "manifestação ilegal" foi arquivado.

Em 2012, quando a situação se deteriorou, as táticas do regime se tornaram mais duras. Mais de 200 mil cidadãos foram detidos como prisioneiros políticos, incluindo milhares de mulheres e até crianças pequenas.

Em 30 de dezembro de 2013 fui presa novamente quando me dirigi a um órgão público para requerer um visto para participar de uma conferência das Nações Unidas sobre a mulher.

Um mandado de prisão também foi expedido contra meu marido, mas ele conseguiu se esconder durante o tempo em que fiquei detida. Na ocasião fui demitida do meu emprego.

A pior coisa no caso da detenção era não saber se ela teria fim. Inúmeros prisioneiros morriam diariamente em consequência das torturas.

Tive sorte de estar viva.

Por mais de um mês permaneci numa cela de quatro metros quadrados e meio com mais de 30 mulheres. Um lugar escuro e frio, sem ventilação.

Essas foram presas com base nas mais diversas acusações - por atividades de ajuda em áreas sitiadas, por vínculos pessoais ou familiares com membros da oposição armada, ou em razão de algum relatório falso do órgão de segurança. Não tínhamos acesso a advogados.

A tortura era rotineira. Entre as técnicas usadas os prisioneiros eram mantidos suspensos no ar pelos braços, submetidos a choques elétricos, espancamentos, queimados com cigarros e tendo as unhas arrancadas. Os gritos dos torturados eram insuportáveis; quase fiquei louca.

Mais de 60 homens estavam na cela vizinha. Os guardas os chamavam de terroristas e os espancavam. O número de detidos diminuiu com a morte de alguns deles e outros foram trazidos. Alguns eram obrigados a dormir ao lado de cadáveres antes dos corpos serem retirados do local. Os corpos exaustos dos vivos estavam infestados de piolhos.

Tive a sorte de não ter sofrido danos físicos, ao contrário de uma médica acusada falsamente de sequestro de um soldado sírio. Eles a suspendiam pelo cabelo e encharcavam seu corpo com água gelada, aplicavam choques elétricos até que, num certo ponto, ela permaneceu inconsciente durante dias. Fui vendada, algemada e arrastada para a sala de interrogatórios. O responsável me esbofeteou várias vezes, ordenou que eu assinasse folhas de papel vazias para constar confissões falsas.

Durante esta segunda detenção, de 40 dias, fui transferida de uma prisão para outra, até ser libertada em uma das primeiras "reconciliações", um acordo de cessar-fogo entre o Exército e os rebeldes, reconciliações que ocorriam depois de o regime sitiar uma área e submeter a população à inanição; a resistência armada tinha de entregar suas armas e ceder o controle da área, incluindo uma troca de prisioneiros.

Quando fui libertada, meu marido, que se ocultara em razão dos nossos dois filhos - fugira para o Líbano. Fiquei confinada em Damasco e impedida de viajar. Finalmente um juiz concedeu-me a custódia temporária dos meus filhos e uma autorização para viajar. Partimos para Beirute onde pedimos asilo.

Nós que vimos por dentro as prisões de Assad apelamos à comunidade internacional para lutar contra a brutalidade catastrófica na Síria e pressionar ambos os lados do conflito a retomarem as negociações políticas baseadas nas conversações de paz de 2014 em Genebra.

O primeiro passo deve ser o fim dos assassinatos, das detenções e desaparecimentos. Os observadores internacionais devem ter acesso às prisões para monitorar as condições dos presos.

Apesar da horrível situação no campo da segurança, pretendo retornar à Síria se tiver oportunidade. Um dia este terrível conflito armado chegará ao fim e acho que as mulheres sírias devem ter também de participar das negociações de qualquer acordo final. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Alise Mofrei é professora e ativista

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