Charlie Riedel / AP
Charlie Riedel / AP

Denúncia contra juiz americano acusado de assédio sexual piora visão feminina sobre republicanos

Indicado por Trump para Suprema Corte terá contra si depoimento de acusadora, marcado para quinta-feira

O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2018 | 05h00

WASHINGTON - A luta do Partido Republicano para salvar o indicado pelo presidente Donald Trump à Suprema Corte, em meio a acusações de assédio sexual, fez surgir uma profunda preocupação com a mentalidade machista que acabou definindo a legenda no debate sobre gênero que envolve os EUA. 

As imagens são chocantes: o espectro dos republicanos na Comissão de Justiça do Senado - todos os 11 membros homens - questionando a mulher que acusou o juiz federal Brett Kavanaugh. Uma foto, que viralizou na internet, de "mulheres a favor de Kavanaugh" mostra mais homens que mulheres. Há também o "id" do partido, Trump, que quando candidato negou uma dezena de acusações de assédio e abuso sexual e procurou silenciar e retaliar as pessoas que o acusaram. Na presidência, ele tem defendido, um após o outro, homens acusados de abusos.

Os democratas apoiaram o movimento #MeToo para galvanizar as eleitoras e conseguir que mais candidatas mulheres vençam o escrutínio nas eleições de meio de mandato marcadas para novembro. E um número crescente de mulheres do partido também vem pensando numa candidatura presidencial em 2020.

Trump poderá consolidar o Partido Republicano como o partido dos homens. Embora ele não esteja na disputa em novembro, vem caracterizando essas eleições como um referendo sobre seu governo e isso faz com que líderes e colaboradores do partido temam o que o estrategista republicano, Alex Castellanos chamou que "onda rosa" das mulheres influenciando uma tomada de controle democrata da Câmara para oferecer um voto de censura ao presidente.

"A antipatia das mulheres por Trump - sejam elas formadas em faculdade, brancas, suburbanas - transcende qualquer coisa que já vi na política", disse Castellanos. 

Reveja: Kavanaugh - mais um problema para Trump

Os pontos de desacordo eram evidentes na semana passada quando Trump se pronunciou sobre o episódio envolvendo Kavanaugh, afirmando que a real vítima no caso era o juiz federal, acusado por Christine Blasey Ford de abuso sexual quando ela estava com 17 anos, e atacando sua credibilidade. Ela vai depor na quinta-feira no Congresso.  

O presidente não é uma figura isolada que está fora da linha convencional do seu partido. Trump é a personificação dos instintos, queixas e da visão de mundo da sua base política, bramindo contra o que considera uma injustiça contra homens acusados.

"Tudo que envolve esta questão condensa em um momento o problema que o Partido Republicano tem com as mulheres - desde o domínio dos homens - com o gabinete de Trump e a liderança republicana no Congresso - até o rechaço de mulheres que sofreram assédio e abusos, culpando as vítimas", disse a pesquisadora democrata Anna Greenberg.

Dentro da órbita política de Trump existe o que  há muito tempo um ex-membro da Casa Branca chamou de "cegueira" para assuntos de gênero como responsabilidade política. 

Reveja: Trump nomeia conservador para Suprema Corte

Trump se recusa a filtrar o que rotula como politicamente correto. Recentemente, chamou a ex-assessora Omarosa Manigault Newman de "cachorra" quando ela publicou um livro em que descreveu o presidente como uma pessoa instável.

Os funcionários da Casa Branca e do gabinete de Trump são, em maioria esmagadora, homens, embora o presidente consulte regularmente o trio de mulheres da Ala Oeste: sua filha e assessora principal Ivanka Trump; a outra assessora, a advogada Kellyanne Conway, e a secretária de imprensa, Sarah Huckabee Sanders.

"Dizer que o Partido Republicano é um punhado de homens é inexato", afirmou o ex-funcionário da Casa Branca Andy Surabian, sublinhando que Trump colocou uma mulher para presidir o Comitê Nacional Republicano, Ronna Romney McDaniel.

As correntes ideológicas do conservadorismo se inclinaram para defender os homens. Os chamados "ativistas dos direitos masculinos", que acreditam que os homens estão sendo oprimidos pelas leis federais e pela sociedade, são considerados de direita. 

Bastante ilustrativo da predominância dos homens no Partido Republicano foi o fato de que, depois de as acusações de Ford serem divulgadas pelo The Washington Post, os refletores imediatamente se voltaram para duas senadoras mulheres: Susan Collins do Maine, e Lisa Murkowski do Alasca.

Relembre: Trump ataca mulheres que o acusam de assédio sexual

"Esta deveria ser uma preocupação de todos", disse a senadora democrata pelo Havaí, Mazie Hirono. "Porque incumbe às mulheres se preocupar que alguém fez este tipo de acusação bastante verossímil?"

Hirono tem sido especialmente enfática no caso do movimento #MeToo, tendo questionado a cada indivíduo nomeado para um cargo que compareceu perante os cinco comitês dos quais ela participa se foi acusado de assédio ou abuso sexual. 

A disparidade em termos de questões de gênero entre os dois partidos aumentou desde a eleição de Trump. A porcentagem de mulheres que afirmam se inclinar pelo Partido Republicano caiu de 35% em 2016 e de uma média de 37% entre 2010 e 2017 para 32% este ano, segundo pesquisa do Washington Post-ABC News.

As mudanças na adesão ao partido coincidem com uma divisão de gênero no tocante à popularidade de Trump. O índice de aprovação do presidente em média entre os homens é de 12 pontos porcentuais mais alto do que entre as mulheres, numa proporção de 45% para 32%, segundo  pesquisa do Post-ABC. / W.POST

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.