Manaure Quintero / Reuters
Manaure Quintero / Reuters

Denúncias de corrupção ameaçam liderança de Guaidó na Venezuela

Reportagem menciona nove deputados opositores envolvidos em manobras em favor do empresário colombiano Carlos Lizcano, vinculado a um programa de Nicolás Maduro para distribuir alimentos subsidiados

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2019 | 07h28

CARACAS - Denúncias de corrupção contra aliados do líder opositor Juan Guaidó desencadearam no domingo, 1.º, uma crise que enfraquece sua estratégia de expulsar do poder o presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Uma investigação jornalística publicada pelo portal Armando.info menciona nove deputados da oposição - alguns da Comissão de Controladoria do Parlamento - envolvidos em manobras em favor do empresário colombiano Carlos Lizcano, vinculado a um programa de Maduro para distribuir alimentos subsidiados.

Lizcano é identificado pelo portal como "subalterno" de outros dois empresários colombianos, Alex Saab e seu sócio Álvaro Pulido, sancionados em 25 de julho pelos Estados Unidos após acusações de sobrepreços em suas importações de alimentos para os chamados Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP). 

Guaidó defende deputados

Ainda no domingo, Guaidó anunciou a suspensão das responsabilidades do grupo de deputados opositores supostamente envolvidos no caso.

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Em entrevista coletiva, ele falou sobre a exaustiva investigação com ONGs e imprensa, dada, em suas palavras, a precariedade das instituições venezuelanas, as quais acusa de terem sido "usurpadas" pelo chavismo governista. No entanto, a suspensão de responsabilidades não significa que ele tenha retirado o mandato dos parlamentares.

Guaidó externou sua rejeição a esforços que um grupo de deputados teria feito para dar indulgências a empresários supostamente ligados ao chavismo, apontados como corruptos. 

"O objetivo era que estas agências absolvessem ou deixassem de investigar empresários como Carlos Lizcano, um subordinado do já punido Alex Saab e Álvaro Pulido", explicou o autoproclamado presidente da Venezuela.

Guaidó também esclareceu que, de acordo com o Regimento do Parlamento, os acusados só deixarão de ser deputados quando a sua imunidade parlamentar for suspensa e isso dependerá do resultado das investigações. 

Acusações nos EUA

Saab e Pulido enfrentam acusações da Justiça americana por lavagem de dinheiro proveniente do plano de Maduro, que a oposição denuncia como estratégia de controle social.

Os legisladores, de acordo com a investigação, enviaram mensagens às autoridades colombiana e americana para livrar Lizcano de responsabilidade nos crimes de Saab e Pulido.

"Não permitirei que a corrupção ponha em risco tudo o que sacrificamos (...), nem ao regime nem a um pequeno grupo de imorais que querem fraturar os venezuelanos. Não vamos encobrir os crimes de ninguém", reagiu Guaidó, chefe do Legislativo e reconhecido como presidente interino por mais de 50 países. Ele anunciou no domingo medidas contra essas denúncias.

Desafios da oposição

Este não é o único caso que prejudica a oposição. Na sexta-feira, depois que Guaidó o demitiu como embaixador na Colômbia, Humberto Calderón Berti acusou representantes do líder opositor de má administração dos recursos destinados à manutenção dos 148 soldados que desertaram em fevereiro em apoio ao chamado governo interino e que fugiram para a Colômbia.

"As autoridades colombianas me alertaram e me mostraram documentos sobre prostitutas, bebidas alcoólicas, coisas impróprias", disse Calderón Berti a repórteres, indicando que sua relação com Guaidó foi rompida há meses.

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O ex-chanceler venezuelano se absteve de culpar o chefe parlamentar. Ele também não divulgou os nomes dos envolvidos.

Baixas

No sábado, em uma carta endereçada a Guaidó, o legislador Freddy Superlano renunciou à presidência da Comissão de Controladoria da Assembleia Nacional para "facilitar as investigações".

No domingo, os principais partidos da oposição - Voluntad Popular e Primero Justicia - excluíram de suas bancadas legislativas cinco deputados citados pelo Armando.info. Os demais fazem parte de outros partidos.

Também anunciaram investigações internas para determinar "responsabilidades" e possíveis "sanções". Em 6 de novembro, o deputado opositor José Guerra havia denunciado "subornos" a colegas, sem dar detalhes.

"Não há osso saudável, as acusações vão e vêm", escreveu no Twitter Diosdado Cabello, presidente da governista Assembleia Constituinte, que na prática assumiu as atribuições do Parlamento de maioria opositora.

Guaidó tenta retomar protestos

Os escândalos explodiram no momento em que Guaidó tenta, sem muito sucesso, reativar os protestos contra Maduro.

A popularidade do opositor, que se autoproclamou presidente em 23 de janeiro, está em queda, enquanto o presidente socialista resiste com o apoio de um setor da população, militares, Cuba, Rússia e China.

Sua popularidade, que atingiu 63%, caiu para 42% em outubro, segundo pesquisa Datanálisis. Se não conseguir lidar com as denúncias de corrupção, a imagem de Guaidó poderá se desgastar ainda mais.

Em 5 de janeiro, ele terminará seu mandato à frente do Parlamento. Embora existam acordos para sua continuidade, grupos minoritários criticam sua estratégia contra o chavismo e outros estão em negociações com Maduro. / AFP e EFE

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