EFE/Wallace Woon
EFE/Wallace Woon

Denúncias derrubam aprovação a Peña Nieto

Suspeita de doações de campanha da Braskem para ex-diretor da Pemex afetam imagem do presidente e do PRI para eleições do ano que vem

Verónica Calderón, especial para o Estado / Cidade do México, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2017 | 05h00

CIDADE DO MÉXICO - O escândalo envolvendo a construtora Odebrecht alcança o México a menos de um ano das eleições presidenciais e abala a já frágil popularidade do presidente Enrique Peña Nieto, que registra os índices mais baixos dos últimos 30 anos.

+ Procurador mexicano diz ter sido demitido injustamente durante investigação da Odebrecht

Peña Nieto admitiu ter se reunido com diretores da construtora entre 2010 e 2013, mas seu porta-voz, Eduardo Sánchez, afirma que a empresa não forneceu dinheiro para a campanha do dirigente. Entretanto, uma fala de Carlos Fadigas, ex-diretor da Braskem, filial petroquímica da Odebrecht, num encontro com investidores foi interpretada como sinal de que a empresa teria acompanhado Peña Nieto “o tempo todo” durante a campanha em 2012. Sánchez afirma que essas acusações são “falsas”.

+ América Latina repudia os políticos corruptos, mas não passa disso

Segundo documentos obtidos pela organização Mexicanos Contra a Corrupção, a Braskem fez transferências de US$ 1,5 milhão para a empresa Latin America Asia Capital, com sede nas Ilhas Virgens e ligada a Emilio Lozoya, na época coordenador internacional da campanha do atual presidente e depois nomeado diretor da estatal do petróleo Pemex. 

Os pagamentos suspeitos se somam a transferências no valor de US$ 3 milhões feitas também pela Braskem para outra empresa de Lozoya e constam da mais recente acusação envolvendo uma vasta trama na qual Lozoya é um dos principais protagonistas e Peña Nieto tem papel central. De acordo com Hilberto Mascarenhas Alves da Silva Filho, diretor de Operações Estruturadas da Odebrecht, Lozoya recebeu mais US$ 5 milhões como pagamento por “favores”. Lozoya ameaçou processar os responsáveis por tais afirmações, que qualificou de “fofocas”. 

O escândalo envolvendo Lozoya, que renunciou à direção da Pemex em fevereiro de 2016, quando a estatal registrou prejuízos históricos, passou a ser considerado de suma importância pela Justiça mexicana quando Santiago Nieto, procurador encarregado da investigação, foi destituído. A alegação de que ele praticou “violações de caráter ético” coincidiu com denúncias de que Lozoya, próximo de Peña Nieto, havia pressionado para a investigação ser suspensa.

Peña Nieto declarou que compareceria ao Senado para contestar a destituição do procurador, mas desistiu no último minuto. A oposição acusa o PRI (Partido Revolucionário Institucional), que voltou ao poder com Peña Nieto, de ter pressionado o presidente para não ir. 

A popularidade de Peña Nieto está no ponto mais baixo de seu mandato. Levantamento do jornal Reforma indica que oito em cada dez mexicanos não aprovam sua gestão. Pesquisa publicada pelo El Universal indica que ele tem 28% de popularidade, o nível mais baixo em 30 anos.

A oposição, no entanto, ainda não conseguiu converter essa impopularidade em favoritismo nas urnas. “Isso se deve mais à falta de rivais que ao mérito do PRI”, diz o analista Mario Melgar. Apesar de o esquerdista Andrés Manuel López Obrador liderar as pesquisas para a eleição do ano que vem, ele ainda não conseguiu conquistar eleitores moderados.

“A política mexicana é uma terra de paradoxos. O PRI precisa de um candidato que não desencante os eleitores fiéis ao partido e ao mesmo tempo que tire eleitores de López Obrador.” O analista diz que o escândalo envolvendo a Odebrecht pode mudar o cenário. “A possibilidade de um processo contra o diretor da Pemex ou mesmo contra o próprio Peña Nieto seria um escândalo sem precedentes no México. Se as eleições fossem hoje, isso poderia fazer parte do cenário. Mas elas não são”, pondera o analista. 

Resposta

O PRI sustenta que, apesar dos depoimentos prestados à Justiça brasileira, das correspondências e de cópias das transferências feitas, a campanha de Peña Nieto não recebeu nenhum financiamento da Odebrecht, da Braskem ou da Latin America Asia Capital, em 2012 e “em nenhum outro momento”.

Em comunicado, a filial da construtora no México afirmou que aguarda o resultado das investigações. No Brasil, a Braskem disse, por meio de nota, ter sido submetida a uma investigação independente que resultou em um acordo global assinado em dezembro de 2016 com as autoridades competentes de Brasil, EUA e Suíça. “A investigação, bem como cada um dos processos de colaboração individuais dos ex-executivos da empresa, não revelaram nenhum ato ilícito relacionado às suas atividades no México”, diz o texto. “Como foi feito ao longo do processo, e com base nas obrigações assumidas no acordo global, a Braskem continua a cooperar com as autoridades relevantes.” / Colaborou Luiz Raatz

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.