Denúncias na TV resultam em represálias

Empresários que se queixaram da pouca produtividade de grupos nacionalizados sofreram perseguição

CARACAS, O AUTOR É JORNALISTA , VENEZUELANO, VIVE EM CARACAS, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2013 | 02h11

Quem sai em busca de papel higiênico acaba encontrando outros produtos que fazem parte da caça diária do venezuelano: farinha de milho, margarina e óleo de milho. Os supermercados nem mesmo colocam os produtos nas prateleiras; os empregados põem os volumes e caixas no chão e ali o cliente já os agarra diretamente. Um dos empregados concordou em falar, mas desde que de forma anônima: "Tente vir na segunda-feira, mas não é certo".

E por que ninguém quer dar o nome? No início desta crise, alguns gerentes e encarregados de supermercados acabaram tendo problemas com seus chefes por conversar com a imprensa. Seus patrões temem represálias do governo, especialmente a ameaça de que o órgão arrecadador de impostos, Seniat, lhes aplique uma sanção e os obrigue a baixar as portas e ter prejuízo durante vários dias. Por isso, agora procuram se cuidar. Até o dono de uma das maiores redes de supermercados recusou-se a ser entrevistado. O governo não gosta que suas faltas sejam apontadas em público, que afirmem que essa situação deve-se ao fato de que suas leis e decisões políticas encurralaram o setor privado, que lembrem que o dólar controlado não flui na velocidade exigida pelo consumo nacional, que se deixe claro que os preços congelados à força distorcem e levam ao desabastecimento, ou que afirmem que as empresas que foram nacionalizadas deixaram de ser competitivas.

Lorenzo Mendoza atreveu-se a isso diante das câmeras de TV. Mendoza é o presidente da Empresas Polar, a maior produtora de alimentos do país que têm no seu portfólio a cerveja Polar e a bastante apreciada farinha Pan. Entre abril e maio, intensificou-se uma campanha na qual porta-vozes do governo culpavam a sua empresa de sabotar a distribuição de alimentos. O próprio Nicolás Maduro acusou a empresa de ter diminuído a produção e sonegar produtos. Contrariando seus hábitos, Mendoza falou aos meios de comunicação, explicando abertamente a Maduro que a empresa Polar havia aumentado sua produção em 10% no primeiro trimestre e não tinha nenhuma margem para sonegar, pois tudo é monitorado por diferentes órgãos oficiais. E quanto à farinha foi claro: a Polar atende 48% da demanda, o restante corresponde principalmente a empresas que foram nacionalizadas pelo Estado - 18 fábricas - que estão operando bem abaixo da capacidade.

Roberto León Parilli é presidente da Aliança Nacional de Usuários e Consumidores (Anauco), associação civil de defesa dos direitos dos consumidores. Leon Parilli expôs o panorama: "A maior parte dos produtos consumidos no país é importada. A indústria nacional não tem capacidade para satisfazer a demanda interna e depender das importações nos faz cair em variáveis de difícil controle".

"Nas últimas semanas o que temos é escassez, não desabastecimento. E isso é pior porque significa que você não acha o produto que procura" explicou.

"O Banco Central da Venezuela reconheceu que o índice de escassez é de 20%, cifra que assusta qualquer pessoa. Para fazer sua compra, você precisa visitar cinco ou seis lugares. Até foi inventado um aplicativo para telefones - Abastéceme - que informa onde você consegue tal e tal produto". / O.M. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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