A arriscada dependência da China
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A arriscada dependência da China

Os bens primários se tornarem predominantes na pauta de exportações é um problema

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2021 | 05h00

A recusa chinesa em comprar a carne bovina brasileira escancara a dependência em relação à China e às exportações de produtos de baixo valor agregado. A situação tem se acentuado nos últimos anos - mais uma amostra de que o Brasil está involuindo.

É bom ter um agronegócio dinâmico e exportar muitas commodities, em termos absolutos. O problema é os bens primários se tornarem predominantes na pauta de exportações, o que revela falta de inovação e competitividade na indústria, e resulta na perda de receitas e de geração de empregos de qualidade.

De 2016 a 2019, a China foi o destino de 93% das exportações de soja do Brasil, 66% do minério de ferro e 69% do petróleo. Nos nove primeiros meses deste ano, 38% das exportações brasileiras do agronegócio foram destinadas à China - quase o triplo da União Europeia, o segundo maior cliente. 

O Brasil é o principal fornecedor de alimentos para a China. Mas a alegação de que a segurança alimentar da China depende do Brasil é falsa. Ao contrário de produtos de valor agregado, que por suas especificidades podem gerar dependência dos compradores, commodities são iguais em qualquer lugar. Não faltam fornecedores de alimentos para a China, que está trabalhando para diversificá-los e, além disso, investindo maciçamente na autossuficiência, como prevê o 14.º Plano Quinquenal, aprovado em março.

O agronegócio representou no ano passado 48% das exportações de bens do Brasil. Somada aos outros produtos básicos, como minérios, essa fatia alcança 52%. Os bens industrializados representam os outros 48%. Em 1994, o Brasil contribuía com 2,69% do valor adicionado da indústria de transformação mundial. Em 2019, essa participação era de 1,19%.

Entre 2005 e 2020, o Brasil recebeu US$ 839,8 bilhões em investimentos estrangeiros diretos (IED) - o sexto no ranking mundial. Na direção contrária, o Brasil enviou US$ 47,5 bilhões em IED para o restante do mundo - 31.º lugar. Em contraste, os EUA tiveram quase o mesmo volume de IEDs recebidos e enviados: US$ 4,1 trilhões e US$ 4 trilhões, respectivamente. 

De novo, nada de errado em receber investimentos. Mas o desequilíbrio existe porque as empresas investem no Brasil para produzir para o mercado local. Não se lançam para o exterior, salvo exceções. Os custos - tributos, logística e burocracia - são tão elevados que não vale a pena exportar. As tarifas de importação altas permitem vender produtos ruins e caros para o mercado interno e retiram o incentivo ao investimento em inovação. Temos de sair dessa armadilha.  

É COLUNISTA DO ‘ESTADÃO’ E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

 

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