Dependência econômica convive com a rivalidade

Laços financeiros devem estabilizar disputas entre Pequim e Washington, apesar de impasses[br]diplomáticos recentes

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2011 | 00h00

Fortalecer a "confiança mútua" e estabelecer novas bases para o relacionamento entre as duas maiores economias do mundo são alguns dos objetivos que a China pretende atingir durante a visita de Hu Jintao aos EUA.

A "desconfiança estratégica" que separa a grande potência mundial de sua emergente rival asiática acentuou-se no ano passado, com uma sucessão de conflitos sobre temas que foram do valor depreciado do yuan à venda de armas americanas a Taiwan.

É pouco provável que as divergências sejam resolvidas durante a visita, mas a expectativa é que o nível de tensão experimentado em 2010 retroceda. "Os dois lados devem dar garantias mútuas de que suas intenções são as melhores possíveis, para que possam desenvolver alguma forma de confiança", disse Jia Qingguo, vice-diretor do Departamento de Estudos Americanos da Universidade de Pequim.

O mesmo ponto é ressaltado por Fu Mengzi, do Instituto Chinês para Relações Internacionais Contemporâneas. "Devemos construir confiança mútua, e não suspeição mútua. Explorar a cooperação, não a confrontação."

O tom ameno contrasta com a agressividade demonstrada por Pequim em 2010 nas diferentes ocasiões em que seus interesses foram contrariados. Pequim protagonizou conflitos não só com os EUA, mas também com Japão, países do Sudeste Asiático e grande parte da comunidade internacional quando o Prêmio Nobel da Paz foi dado ao dissidente Liu Xiaobo, impedido de recebê-lo em cerimônia realizada na Noruega, em dezembro.

Mesmo que consigam amenizar os conflitos, é pouco provável que os dois países superem a desconfiança mútua. Muitos nos EUA veem a China como a grande ameaça à manutenção do poderio e da influência americana no mundo, enquanto em Pequim há a convicção de que Washington tentará, em algum momento, conter a ascensão do país.

"A China não é uma ameaça aos EUA. A China é que deveria se sentir ameaçada pelos EUA, que possuem um poderio militar muito superior", observou o professor Jia. Segundo ele, as críticas americanas aos crescentes investimentos militares chineses refletem a "desconfiança estratégica" que marca a relação bilateral. "Se a China fosse percebida como aliada, a modernização de suas Forças Armadas não seria percebida como uma ameaça."

O especialista não disse, mas o mesmo raciocínio poderia ser utilizado para a presença militar americana no Pacífico, vista pelo governo chinês como fonte de insegurança. Na opinião dos dois acadêmicos, a dependência econômica entre os dois países fará com que a relação se estabilize, após o período turbulento de 2010. "Ambos têm de proteger esse relacionamento para proteger seus interesses", ressaltou Jia. "Os dois lados têm a ganhar com uma boa relação e a perder com a confrontação", disse Fu.

A cobertura da visita de Hu pela imprensa chinesa tem sido controlada pelo governo e todos os veículos de comunicação reproduzem os mesmos textos aprovados pelo Partido Comunista. A linha geral é otimista, com menções episódicas às desavenças recentes.

Tanto o discurso de posse de Obama, em 2008, quanto sua fala durante passagem por Pequim, em 2009, foram censurados pelo governo chinês. Há uma teoria, não confirmada, de que a TV chinesa transmite "ao vivo" sempre com 30 segundos de atraso, para dar tempo de interromper o sinal em caso de subversão.

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